Goiânia, 21 (AE) - Os sequestradores do compositor Wellington José de Camargo cortaram dois terços de uma das orelhas dele com uma faca afiada. Para estancar o sangue, colocaram borra de café e açucar, um procedimento que não evitou uma infecção, segundo o boletim médico divulgado na tarde de hoje.
Wellington estava bastante abalado, com alguns ferimentos e fortes dores musculares, provocados pela falta de um colete costal que usa normalmente. "Ele disse que ficava o tempo todo num buraco no chão", contou a cirurgiã plástica Miriam de Castro Davini, que examinou o ferimento.
A crueldade usada pelos sequestradores surpreenderam até os médicos. O boletim sobre o estado de saúde de Wellington dizia que ele fora sedado 24 horas antes de ser libertado, mas passou mais de três meses num buraco. "Ele deu entrada no hospital em péssimo estado de higiene, fisicamente enfraquecido e estado emocional alterado", diz o boletim.
As dores musculares que Wellington sentia, segundo o boletim, foi por má postura - que confirma a permanência dele no buraco - e limitação dos movimentos, por causa da falta do colete ortopédico que tinha de usar com frequência. Na orelha cortada, segundo o boletim, "havia áreas de cartilagem exspostas, secreção purulenta e crostas de sangue".
Ho hospital, Wellington foi submetido a exames de sangue
eletrocardiograma e deverá passar por várias seções de fisioterapia. Ele deverá permanecer em repouso, com leve sedação, por mais dois dias, devendo ser transferido para a casa dos pais, no centro de Goiânia. O compositor não deverá mais morar na casa do bairro Jardim América, onde foi sequestrado.
Wellington teve a orelha cortada há pelo menos oito dias
segundo avaliação da polícia. O pedaço da orelha foi enviado para a afiliada do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) de Goiânia no dia 14. De acordo com fontes da Secretaria de Segurança Pública de Goiás, a primeira pista que a polícia teve de que os sequestradores estavam próximo a Goiânia foi a parte da orelha, que ainda estava suja de sangue.
Segundo a cirurgiã plástica que atendeu o compositor, Wellington terá de passar por um enxerto no local cortado pelos sequestradores.
Miriam acredita que pelo menos dois terços da orelha tenham sido cortados, mas o processo infeccioso foi contornado. Apesar de o corte ter sido feito numa região sensível do ouvido - os contornos anatômicos - a médica acredita que não haverá grandes deformações.
Depois dos primeiros exames médicos, Wellington foi consultado por uma psicóloga, uma vez que o estado emocional dele era ruim, segundo os médicos que o atenderam. Ele chorava constantemente quando falava sobre o cativeiro e evitava descrever o sequestro. A polícia só irá tomar o depoimento do compositor quando ele deixar o Hospital Amparo, onde chegou hoje pela manhã. Isso deve acontecer em dois dias.

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