Curitiba - Dos mais de 52.515 atendimentos a crianças e adolescentes vítimas de violência feitos por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) em 2011, 40,5% são referentes à violência física (21.279). Em segundo lugar aparece a violência sexual, com 10.425 registros, respondendo por 20% do total de atendimentos. Conforme o Mapa da Violência 2012, estes casos se concentram na faixa etária de 5 a 14 anos. A grande maioria (83,2%) ocorre contra crianças e adolescentes do sexo feminino; e 16,7% (1.748) contra meninos.
Dentro da violência sexual, o estupro concentrou 59% do total de atendimentos, sendo sua maior incidência na faixa de 10 a 14 anos, com uma taxa de 17,7 atendimentos para cada 100 mil crianças e adolescentes. Dos atendimentos de vítimas de estupro realizados no SUS, 6.108 foram feitos com pacientes femininos e 1.046 masculinos.
Conforme Maria Cristina Silveira, pediatra do Hospital Pequeno Príncipe, de Curitiba, que é referência em atendimento a crianças, são perceptíveis as sequelas emocionais profundas que as vítimas de violência sexual carregam. Nervosismo e medo ainda quando crianças e repulsa ao sexo na fase adulta são alguns dos comportamentos observados em pacientes que passaram por esse tipo de agressão, de acordo com a médica.
''É possível verificar indícios de que algo está errado. Distúrbios de sono, dificuldade de aprendizagem, dificuldade de relacionamentos e autoestima são verificados em crianças e jovens que passaram por esse tipo de trauma'', apontou.
Segundo ela, somente em 2011, o hospital atendeu 371 denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Desse total, afirmou a médica, 60% são violência sexual sendo que, dos casos, 40% ocorreram contra meninos e 60% contra meninos. ''Todas os casos de crianças que tiveram confirmadas a violência sexual são acompanhados pela instituição e pela Rede de Proteção Infantil do Estado'', explicou.
Ato libidinoso
Maria Cristina explica que muitas vezes a primeira queixa que chega à instituição é referente a um ato libidinoso, que é passar a mão ou beijar, e não o ato sexual em si. Entretanto, apontou, o agressor procura ganhar a confiança da vítima antes de praticar o estupro. ''O problema é que o ato libidinoso é difícil de ser identificado. Temos que ver o histórico da criança ou adolescente. O agressor normalmente é da família ou conhecido da família e a pessoa nega o fato. Nestes casos, a vítima volta a conviver com o agressor e acaba retornando mais tarde, já sendo vítima de estupro'', alertou.
Denúncias
A pediatra ressalta que em grande parte dos casos a mãe é conivente com o agressor e é a avó ou outro familiar que leva a criança ao hospital. Também existem agressores sexuais femininos e, quando o parceiro verifica a situação, acaba denunciando. Outra preocupação são as mães que dependem financeiramente do marido e deixam de procurar ajuda por medo de perder o ''provedor da residência''.
Mas, apesar do panorama preocupante, Maria Cristina aponta que a quantidade de denúncias vem crescendo nos últimos anos. ''Hoje, apenas 25% dos casos que ocorrem no País são denunciados. O ideal seria chegarmos a pelo menos 70%. A denúncia pode ser anônima, porque muitas vezes o agressor ameaça a vítima'', finalizou.(R.C.J.)

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