Sepultado o herói da física nacional
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quarta-feira, 09 de março de 2005
Cássio Leite Vieira<br>Folhapress 
São Paulo, SP- O corpo do físico César Lattes foi sepultado ontem á tarde, no cemitério Flamboyant, em Campinas. Lattes, que era viúvo, foi enterrado ao lado da esposa no jazigo da família. Vítima de uma parada cardíaca, ele morreu anteontem, no Hospital das Clínicas da Unicamp, em Campinas. O ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, e o presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Erney Camargo, compareceram ao sepultamento. As informações são da Agência Brasil.
O pesquisador, que confirmou a existência da partícula conhecida como méson pi e foi um dos líderes da geração de ouro que revolucionou o estudo da física no Brasil, tinha 80 anos.
Amigos dizem que, ao longo dos últimos meses, ele já andava muito abatido, em crise depressiva, pela morte da mulher, Martha, no ano passado. Cesare Mansueto Giulio Lattes nasceu em Curitiba, em 11 de julho de 1924, mas a intersecção de sua vida com o sucesso foi ocorrer bem longe dali:
Inglaterra, 1947. O Laboratório H. H. Wills ocupava o quarto andar de um prédio monumental da Universidade de Bristol, no oeste do país. Lá, uma equipe liderada pelo físico Cecil Powell (1903-1969) tentava capturar os estilhaços produzidos, a dezenas de quilômetros de altitude, pelo choque de partículas ultraenergéticas -os chamados raios cósmicos- contra núcleos atômicos que formam o ar.
A esperança era que um fragmento ainda desconhecido da matéria fosse capturado ao imprimir sua trajetória em chapas fotográficas especiais (as emulsões nucleares). Entra em cena o físico brasileiro, então com 23 anos. Seu diferencial: entusiasmo, boa formação teórica e excelente treinamento na análise dessas emulsões ainda no Brasil.
Lattes teve aulas na USP com um dos membros da equipe de Powell, o italiano Giuseppe Occhialini (1907-1993). Em Bristol, pediu que o fabricante das emulsões, a Kodak, colocasse um pouco mais do elemento químico boro na composição das chapas. Foi atendido. Deu algumas dessas novas emulsões a Occhialini, para que fossem expostas no Pic-du-Midi (França), onde seu ex-professor ia esquiar.
Nas alturas, é maior a probabilidade de se capturar os subprodutos da chuveirada de até bilhões de partículas causada pelo impacto inicial de um raio cósmico contra um núcleo atômico.
Na volta, ao revelá-las, Occhialini descobriu as primeiras evidências de uma partícula que muitos grupos de pesquisa buscavam: o méson pi (ou píon). Virou a noite, escreveu um artigo sem conhecimento de Powell e o enviou para publicação. Essa insubordinação garantiu um lugar na história da física ao grupo de Bristol.
Lattes pediu permissão para expor emulsões em outro pico, o monte Chacaltaya, nos Andes da Bolívia. Voltou ao Rio com as chapas já expostas. Revelou uma delas, e lá estavam mais evidências dos píons. Aproveitou para se casar com Martha.
Lattes voltou à Inglaterra com suas chapas de Chacaltaya. Calculou a massa do méson pi -um trabalho que exige a paciência de um monge tibetano, pois envolve contar milhares e milhares de pontinhos nas emulsões reveladas- e publicou seus resultados. Esses e os primeiros artigos daquele ano (1947) tiveram um grande impacto internacional. E o nome do Brasil estava lá.
O méson pi havia sido previsto ainda em 1935 pelo físico japonês Hideki Yukawa (1907-1981). Descobrir essa partícula implicava explicar por que o núcleo dos átomos é estável, coeso -em outras palavras, explicar por que os prótons, que têm carga elétrica positiva, não se repelem e, com isso, explodem o núcleo.
No ano seguinte, Lattes estava em Berkeley, Califórnia. Lá, com seu colega norte-americano Eugene Gardner (1913-1950), fez outra grande descoberta -graças ao seu olhar apurado: detectou, em pouco mais de uma semana de análises das emulsões, as trajetórias de píons produzidos no acelerador de partículas da Universidade da Califórnia.
Segundo Occhialini, em texto para a ''Folha de S.Paulo'' (21/7/1984), só esse trabalho já garantiria a Lattes um lugar na história da física. Mas ele fez (bem) mais do que isso. Na década de 1960, descobriu novos fenômenos, estabeleceu vários laboratórios no Brasil e no exterior e concretizou uma série de colaborações internacionais -a principal delas com o Japão.


