Separadores aprendem informática com computadores jogados no lixo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de novembro de 2005
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Curitiba- Delandir Chela Ribeiro, de 44 anos, trabalhou a vida toda como diarista e jamais achou que algum dia teria a chance de operar um computador. Assim como ela, os classificadores de resíduos José Amauri Luiz, 37, Rodrigo da Silva Andrade, 23, e Anderson Claiton Quagliotto, de 22 anos, contam que nunca haviam ligado um computador em suas vidas. ''Só peguei em computador para levar de um lugar para outro'', brinca Amauri Luiz. Em meio a frases bem-humoradas, ele revela que sua melhor sensação, ao ter aulas de informática, é saber que vai poder ajudar os filhos, hoje com quatro e sete anos, quando forem aprender a usar um computador.
Delandir, José, Rodrigo e Anderson fazem parte de um grupo de 30 funcionários da Unidade de Valorização de Rejeitos, usina de separação do material reciclável coletado pelo programa Lixo que Não é Lixo, mantida pelo Instituto Pró Cidadania de Curitiba (IPCC), ligado à Prefeitura de Curitiba. Desde julho, eles têm aulas de informática no local de trabalho, usando apenas material descartado e reciclado.
A idéia partiu de dois funcionários da usina que sentiram-se incomodados com o grande volume de sucata em equipamentos de informática, entre eles monitores, CPUs, mouses, placas, teclados e outros acessórios, recolhidos diariamente nas ruas da cidade.
''Há uns dois anos, quando abrimos conta bancária para os funcionários, notei que eles tinham muita dificuldade em trabalhar com o Banco 24 horas. Aí tive a idéia de usar esse material para que eles pudessem aprender, mas não havia ninguém que conhecesse informática aqui dentro'', conta o gerente da unidade, Alfredo Carlos Holzmann.
O parceiro certo apareceu há um ano, com a contratação de Alisson José Santos, de 21 anos. Com 2º grau completo, ele entrou como classificador de resíduos, mas logo foi promovido a auxiliar administrativo da usina. ''Eu me interessei pela idéia, fui atrás de um curso de montagem, manutenção e configuração de computador'', conta.
Em média, cada dez máquinas que chegam se transformam em um computador que funciona. Até agora, ele conseguiu construir sete computadores. A configuração é suficiente para operar programas do Windows 98 sem problemas. O curso também possui apostilas, todas recicladas.
A iniciativa foi muito bem recebida pelos empregados. Além de Alisson, Michele e Juliana, ambas lotadas como assistente administrativo, propuseram-se a ser voluntárias e dar aulas a seus colegas. Dos 75 empregados, 45 mostraram interesse em aprender. Quinze estão em lista de espera e outros 30, com idade entre 21 e 45 anos, recebem aulas, de 30 minutos, sempre no horário de intervalo da hora do almoço.
''Os alunos estão entusiasmados. Eles gostam, fazem tudo com vontade, querem aprender e nunca faltam'', afirma Alisson. Para ele, os alunos têm interesse porque sabem que precisam ter conhecimentos sobre informática para sua ascenção profissional. ''Os mais novos têm bastante planos e os mais velhos querem aprender só para conhecer'', constata.


