Seo Manoel, recenseador de 1950, pede emprego no IBGE
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domingo, 30 de julho de 2000
Lúcio Flávio Moura De Londrina 
Em meio ao corre corre dos dias de preparação para o início do Censo Demográfico 2000, um ilustre visitante por pouco não passa desapercebido na agência do IBGE orgão governamental que elabora e executa o recenseamento em Londrina. Relutante, quase tímido, tão franzino quanto bonachão, o aposentado Manoel do Rosário, 76 anos, entrou sorreteiramente na repartição. Fez o primeiro pedido.
Disseram que tem café fresco por aqui.
Entre o perplexo e o distraído, a audiência consentiu calada a caça do velhinho rumo a garrafa térmica. Abastecido, já um tanto ambientado, fez o segundo pedido.
Li no jornal, vai começar o censo. Tem uma vaga pra mim?
Decepcionado, ouviu a resposta dada em meio a sorrisos: o recrutamento havia acabado havia alguns meses. Os 546 pesquisadores que irão trabalhar na coleta em Londrina e mais oito municípios vizinhos passaram por um processo seletivo e a partir desta semana (o cronograma atrasou por causa da demora na chegada das cartilhas) estarão recebendo treinamento.
Desacostumado com a burocracia da modernidade, seo Manoel tentou convencer os funcionários da repartição com um argumento poderoso, mas inútil. Ele ainda tinha pernas. E experiência de sobra. Trabalhou no primeiro censo demográfico do pós-guerra, em 1950, quando 51.944.397 pessoas viviam no Brasil.
Tratado com frieza e desinteresse no mar de mesas e telefones tocando, mas esbanjando lucidez, o aposentado não perdeu o bom humor e começou a relatar à Folha com palavras bem escolhidas a aventura de um recenseamento no País rural, trabalhador, pacato quase sem miséria e de maioria analfabeta, que já não existe mais, mas que deixa saudades no velho homem de boa memória.
Durante seis meses visitou fazendas na região de Cornélio Procópio, na época, um dos principais pólos cafeeiros do Brasil.
Ia de jardineira até as colônias, abarrotadas de gente. Eram famílias grandes, que das atividades de subsistência abasteciam a mesa farta. Quase ninguém tinha instrução, mas todos tinham hospitalidade. Davam teto e comida com satisfação lembra Seo Manoel, então um jovem de 26 anos cheio de disposição.
A data da primeira entrevista ele não esquece. Era 1º de julho de 1950, frio intenso. Nas primeiras semanas, entre um questionário e outro, ouvia a campanha brasileira na Copa do Mundo, troféu que o uruguaio Gigghia e seus companheiros não deixaram ficar no Brasil. O rádio tinha importância colossal, estava no espaço nobre de todas as casas das fazendas.
Maior que a TV hoje.
Pela Radio Nacional, do Rio de Janeiro, então capital da República, ouviu pronunciamento do presidente Eurico Gaspar Dutra levantando o ânimo dos recenseadores e também ouviu notícias da campanha de Getúlio Vargas, o candidato que ajudaria a eleger anos depois.
Além das recordações, guardou daquela tarefa árdua um bom dinheiro e herdou um emprego definitivo no IBGE, onde trabalhou por oito anos e meio.
Antes do censo, ganhava dez vezes menos como alfaiate.
Saiu do IBGE por problemas políticos e encerrou sua vida de integrante da População Economicamente Ativa como corretor de imóveis. Hoje, ajuda a filha (tem mais 13 espalhados pelo Brasil) em uma pequena confecção de fundo de quintal no Jardim Catuaí, zona norte de Londrina. Recebe R$ 151,00 de aposentadoria e aguarda que algum bom coração se compadeça e doe uma máquina de estampar camisetas para que o negócio progrida.
Bom de conversa, ele vai caminhando pelas ruas e contando à reportagem como era a Londrina da década de 40. Natural de Paranaguá, de onde veio aos 13 anos para o Norte do Estado, o ex-recenseador não esquece o barro vermelho, que não combinava com seu cheiro de maresia.


