Belém, 19 (AE) - Quando o juiz Ronaldo Valle anunciou, pouco depois da meia-noite, a setença inocentando os três oficiais, os quase mil sem-terra que estavam assistindo ao julgamento por meio de um telão, instalado fora do plenário, emudeceram. Ninguém parecia acreditar na absolvição. Mas o silêncio durou apenas o tempo de os trabalhadores perceberem que estavam cercados por policiais militares. Eles trocaram a vigília que estavam fazendo por ataques aos PMs. Por pouco, e por causa da atuação de alguns parlamentares, a situação não ficou mais grave.
Antes da leitura da sentença, os sem-terra acenderam centenas de velas no meio da rua, em forma do mapa do Brasil, como forma de protesto. Depois de anunciada a absolvição dos militares, as velas passaram a ser atiradas em direção aos policiais que começaram a revidar com golpes de cassetetes. No tumulto, Maria Raimunda da Silva Belém, de 55 anos, foi atingida nas costas e ficou ferida. Três pessoas foram presas e levadas para a delegacia de polícia do bairro Umarizal, onde está a Universidade da Amazônia (Unama), local onde foi realizado o júri. O pelotão de Choque da PM, que estava dentro do estabelecimento, foi para a rua.
Os soldados já estavam preparados para atirar bombas de efeito moral quando o deputado federal João Batista Araújo, o Babá (PT-PA), surgiu e pediu, em um carro de som, que todos se afastassem para evitar um conflito. Revoltados, os sem-terra voltaram para o acampamento perto da Unama, onde ensaiaram, ainda, uma nova manifestação, que acabou não contecendo por causa da interferência de algumas lideranças. Parecendo incrédulo com o que estava acontecendo, o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, acusou o juiz Ronaldo Valle. "Ele manipulou o julgamento", disse. "Sou cristão, acredito em céu e inferno, por isso espero ver o juiz no inferno", acrescentou. Segundo ele, toda a área jurídica do MST vai ser acionada para anular o julgamento. De acordo com o coordenador nacional do movimento, a partir de agora, todos os crimes de morte que acontecerem no Pará serão de total responsabilidade do juiz. "Ele decretou a impunidade no Estado", disse.
Stédile considerou o tribunal de júri como um "teatrinho para estudantes de Direito aprenderem a fazer julgamento". "Não estamos dispostos a participar deste teatro". Na semana passada, o coordenador regional do MST, Raimundo Nonato de Souza afirmou que, caso os militares fossem absolvidos, haveria uma nova onda de invasões em todo o Estado. O movimento pretende organizar grupos de desempregados em Belém para engrossar as ocupações. As primeiras, segundo o MST, serão nas proximidades da capital do Pará.
Hoje, depois de uma reunião realizada na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o movimento definiria a tática a ser adotada a partir da decretação de inocência dos militares.

mockup