Brasília, 14 (AE) - O senador Luiz Estevão (PMDB-DF) telefonou para a casa do juiz Nicolau dos Santos Neto, ex-presidente do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, e para a construtora Ikal. Os números aparecem nas contas dos telefones de sua casa, de setembro e outubro. Só se tornaram públicas porque foram incluídas, como comprovantes de despesas, na prestação de contas da campanha que ele encaminhou ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Distrito Federal.
Estevão fez duas chamadas para Santos Neto, em 5 de outubro, com duração de 2,5 e 1,08 minuto. Entre 23 de setembro e 14 de outubro, ele telefonou nove vezes para a Ikal, de sua casa. A ligação entre o senador e a Ikal e a Incal, pertencentes aos empresários Fábio Monteiro de Barros e Eduardo Ferraz, havia sido identificada pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário no Senado. A quebra do sigilo telefônico dessas empresas mostrou que houve 490 telefonemas entre elas e o Grupo OK, de Estevão, entre 1994 e 1998. A CPI constatou ainda que a Incal depositou nove cheques, no valor de R$ 2,28 milhões, em duas empresas do senador. Os dois grupos foram os únicos que concorreram aos US$ 139 milhões da obra, anunciados num processo de licitação com edital irregular.
Um dos ítens especificava que as empresas se compromoteriam a fazer a obra sem fixar as datas das parcelas do pagamento. Uma terceira empresa que tentou participar, a Santa Gisele, foi desclassificada antes da abertura das propostas. O Grupo OK perdeu a concorrência para a Incal por apenas três pontos, mas não recorreu. O fato levou o Ministério Público (MP) de São Paulo a suspeitar da união dos dois grupos na contrução do fórum, uma obra inacabada que consumiu dos cofres públicos RS 263,9 milhões. Estevão disse ter limitado-se a retornar as chamadas em que Santos Neto desejava o cumprimentar pela eleição para o Senado. Quanto aos telefonemas para a Ikal, afirmou que pode os ter feito com o objetivo de tratar de negócios ou então teriam sido dados pela filha dele, amiga da filha de Barros. "Minhas ligações com o Fábio são normais", afirmou. O senador anunciou há poucos dias que divulgaria os contratos firmado entre o Grupo OK e as empresas de Barros, mas mudou de idéia por entender que a empresa da qual é proprietário "não está sob investigação". "Minha empresa nunca fez nada com o TRT de São Paulo", justificou.
Segundo ele, a CPI deve desistir de colocá-lo como personagem dessa denúncia para investigar quem realmente teve participação no caso, "como o Tribunal Superior do Trabalho (TST), que é quem pedia o dinheiro, e o Tribunal de Contas da União (TCU), que não impediu a continuação da obra".
Na prestação de contas de Estevão, são relacionados os valores recebidos em cheques, mas omitidos os nomes dos doadores
embora uma do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) obrigue os candidatos a os identificar. O senador afirma ao TRE que terminou a campanha com um déficit de R$ 204.714,10. Ele teria arrecadado R$ 480 mil para gastos que somaram R$ 684.714,10. A prestação de conta deixa dúvidas sobre os valores que os artistas que participaram dos showmícios dele teriam recebido. O cantor sertanejo Leonardo, por exemplo, recebeu R$ 5 mil por apresentação, embora estivesse numa fase de sucesso. O grupo de pagode Katinguelê, que se apresentou em 26 de julho, assinou um recibo de R$ 2 mil, o mesmo que teria sido pago ao conjunto de rock Biquini Cavadão, em 9 de agosto, ao grupo de pagode Raça Negra e ao cantor e ator Maurício Mattar.
Os cachês mais elevados foram pagos aos grupos de pagode Só Pra Contrariar, que recebeu R$ 20 mil em 1º de outubro, e de axé music Chiclete com Banana, que recebeu R$ 10 mil. O primeiro parecer da chefe de Auditoria do TRE, Raquel Soares Bugarin, é pela rejeição das contas de campanha do senador. Mas a justificativa da coligação e outros argumentos técnicos mudam a apreciação e a prestação é aprovada por unanimidade.

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