Brasília, 16 (AE) - O senador Luiz Estevão (PMDB-DF) apresentou dois requerimentos ao presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário no Senado, Ramez Tebet (PMDB-MS), que, se forem aceitos, podem tornar inviável o cerco aos empreiteiros amigos dele, Fábio Monteiro de Barros e Eduardo Ferraz.
A estratégia é uma tentativa de impedir que a CPI continue apurando a ligação das empresas dele com as obras superfaturadas do Fórum trabalhista de São Paulo.
Os empreiteiros são donos da Incal, depois chamada de Ikal, envolvidos no desvio de R$ 168,28 milhões dos R$ 222,62 milhões destinados à obra.
Pelo estrago causado na reputação dele de senador, a precaução de Estevão reforça a suspeita, alimentada pelos dados recebidos pela CPI, de que ele seria sócio dessas empresas. As informações vão mais longe, ao revelar que a Incal teria passado a se chamar Ikal porque absorveu o "K" do Grupo OK, pertencente a ele. Isso explicaria os contatos telefônicos dele com o ex-presidente do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo Nicolau dos Satnos Netos, acusado de comandar as irregularidades, e o fato de ter recebido dez cheques da Ikal.
Nos requerimentos, Estevão pediu o número da matrícula e outros dados de identificação dos técnicos da CPI, fato que foi entendido pelos colegas da comissão como uma forma de intimidar ao servidores.
Ele também emprega um tom de ameaça nos inúmeros telefonemas que tem feito à CPI, até quando se encontra nos Estados Unidos. Dessa forma, o senador tenta impedir que as informações envolvendo o nome dele continuem chegando à imprensa.
No outro requerimento, ele pediu para pôr alguém de confiança dele no corpo de técnicos da CPI. Esse "fiscal" se encarregaria de brecar eventual divulgação de documentos comprometedores. Tebet rejeitou os dois pedidos. "Vou agir estritamente dentro daquilo que manda a minha consciência e o que eu acho correto", justificou. Tebet vai receber amanhã (17) o pedido do senador Jefferson Pérez (PDT-AM) para que o procedimento de Estevão seja analisado pela Corregedoria do Senado. "Lamento esse tipo de comportamento", justificou Pérez. "Além de se abster de qualquer ato, acho que o senador Luiz Estevão deveria se oferecer para depor."
O presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), assegurou que a tentativa de Estevão de aterrorizar os técnicos da comissão não surtirá efeito. "Ninguém vai ficar aterrorizando aqui", afirmou. "Nem o senador Luiz Estevão tem poderes para isso." ACM afirmou que qualquer outra nova tentativa "será impedida pela Mesa". Para o senador José Eduardo Dutra (PT-SE), Estevão deveria adotar outro tipo de procedimento. "Se ele não tem nada a temer, tem de confiar na seriedade do trabalho da CPI", defendeu.
"Essa é um tática totalmente condenável", condenou o senador Maguito Vilela (PMDB-GO). Apesar do pânico que criou entre os técnicos da comissão, Estevão deu outra versão da história. Ele disse que quer, sim, saber quem pode lhe passar informações sobre as investigações.
Sobre a colocação de um fiscal da confiança dele na equipe, alegou que a iniciativa facilitaria o acesso aos dados. "Não há intimidação; apenas quero conseguir a relação das chamadas que o juiz Nicolau teria feito para meu celular", justificou. Essa investigação particular levou Estevão a conseguir, com o aval de Tebet, o arquivo completo dos telefonemas examinados pela comissão. Ele está preocupado com o rumo das apurações, pela insistência como procura saber sobre os dados divulgados pela CPI com relação ao superfaturamento das obras do Fórum.
Foi essa reação que levou os técnicos da CPI a buscar o apoio dos senadores. Eles temem que Estevão adote algum tipo de represália que poderia os prejudicar, tanto profissionalmente como fisicamente. O senador é conhecido pela forma truculenta como age para conseguir os objetivos. Ele envolveu-se em várias brigas na Câmara Distrital, quando era deputado, numa das quais chutou o deputado Geraldo Vilela (PT), e em debates nos quais costuma intimidar o adversários com ameaças.

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