Paris, 14 (AE) - O presidente Jacques Chirac falou sem rebuços : "É consternador!" - lamentou ele quando o Senado norte-americano rejeitou o Comprehensive Test Ban Treaty (CTBT).
"Consternador!", porque isso mostra quanto o Senado da grande nação pode ser frívolo, irresponsável, iracundo e perigoso. Ninguém duvida que o Senado, ao rejeitar pela primeira vez desde 1919 um tratado apresentado pela Casa Branca, quis em primeiro lugar humilhar Bill Clinton. Mas, por quê? Os republicanos estão se vingando de seu fracasso na questão do impeachment de Clinton? Será então preciso colocar na balança as bombas nucleares e o vestido da senhorita Monica Lewinski?
No fundo, os perigos abertos pela votação do Senado são infinitos: permissão para que todos os países "no limiar" da bomba, possam continuar tranquilamente suas experiências, visto que o mais forte de todos, os Estados Unidos, que regem o universo, podem prosseguir com seus testes.
O fato de esta "farsa" do Senado ter ocorrido no momento em que o Paquistão - ao mesmo tempo "potência subdesenvolvida" e potência nuclear - esteja sendo entregue a um general, acrescenta a tudo isso simultaneamente uma pitada de ironia e uma pitada de terror.
Certamente, o tratado não é totalmente eficaz. E, neste ponto, os argumentos do Senado devem ser ouvidos. Em 1993, a áfrica do Sul admitiu , para supresa geral, que possuia seis bombas, destruídas posteriormente em sinal de paz. Em maio passado, o Paquistão e a Índia realizaram ambos testes nucleares. E, embora não se duvidasse que Nova Délhi e Islamabad estavam no caminho nuclear, nenhum especialista poderia acreditar que estivessem tão adiantados. Pouco depois, o Iraque demonstrou que chegou perto da bomba nuclear sem que ninguém tenha percebido. E a Agência Central de Inteligência (CIA) admite ser incapaz de detectar explosões de fraca potência.
Todos estes fatores provam que, por mais excelente que seja, o CTBT não é a arma absoluta contra a proliferação nuclear. Apesar do notável sistema de controles, o tratado não dá 100% de garantia de que um Estado não possa burlar seus controles.
Seria esta uma razão para dilacerar o CTBT? Certamente não. Em primeiro lugar, porque o fato de uma superpotência desprezar tais regras representa um incentivo moral ao mundo inteiro para se embrenhar pelo mesmo caminho. Qual a razão para que o Iraque se obrigue a frear sua corrida nuclear se os Estados Unidos fazem explodir suas próprias bombas? Sem dúvida, o controle não é absoluto.
Mas, pelo menos obriga os "candidatos" a camuflar seus trabalhos, a realizá-los mais lentamente e a não testar senão artefatos de pequeníssima potência.
Ora, os Estados que estão cobiçando a bomba são cada vez mais numerosos. Conhecemos os últimos solicitantes: Índia, Paquistão. Mas, por trás, há uma vintena de países que trabalham neste campo. Um bom número desses vinte postulantes pertence à categoria de "Estados-párias" ou "Estados-vagabundos". Ora, o fato de algum desses Estados miseráveis produzir bombas seria muito mais inquietante do que os conflitos eventuais, porque, após a dissolução da segunda superpotência, a União Soviética, tais conflitos são cada vez mais confinados e regionais.
Imaginemos um ditador de um país emergente, possuidor de uma bomba, que ridicularmente lançasse uma dessas bombas nucleares!... Se refrescarmos nossa memória, lembrando os retratos de tiranos recentíssimos, desde Idi Amin Dada até Ferdinand Marcos, ou algum general argentino, sentiríamos um calafrio na espinha!...
Decididamente, a palavra de Chirac - "consternador!" - foi bem escolhida, porque, afinal, como confiar em um Senado que aceita incentivar a proliferação, que se recusa a dar sua contribuição à ONU, que reduz o volume de sua ajuda ao exterior e tudo isso em total desacordo com seu próprio presidente Bill Clinton?

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