Semana deve ser difícil para presidente De la Rúa
Buenos Aires, 24 (AE-ANSA) - Esta não será uma semana fácil para o presidente da Argentina, Fernando de la Rúa. Os sindicatos rebeldes e a oposição peronista devem tentar barrar de novo, no Congresso, sua política de ajuste.
Enquanto isso, fica cada vez mais difícil esconder a crise da Aliança, a coalizão de centro-esquerda que o colocou na Casa Rosada. Hoje foram reiniciadas as negociações com os peronistas, maioria no Senado, para se conseguir a aprovação de uma controvertida lei de flexibilização trabalhista que tira o poder dos sindicatos. A aprovação da lei ficou suspensa na semana passada por causa das manifestações populares, duramente reprimidas pela polícia.
Os senadores peronistas parecem dispostos a negociar com o governo. Contudo, a repressão às manifestações contrárias à medida, que deixou 30 feridos diante do Congresso, reforçou a intransigência dos sindicatos, que pedem a rejeição do projeto. Já está marcada para quarta-feira uma nova manifestação quando o Senado discutir o projeto. Os senadores podem negar-se a votar ou rejeitar a lei, o que adiaria a discussão por, pelo menos, um ano.
Analistas lembram que o ex-presidente Carlos Menem tentou aprovar uma lei semelhante durante dez anos e não conseguiu. Basicamente, a lei facilita os contratos temporários e prevê o fim de direitos conseguidos há 30 anos pelos trabalhaores e que são considerados atualmente como obsoletos.
A flexibilização trabalhista é considerada fundamental para reduzir o desemprego e consolidar os acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que já incluíram um duro ajuste fiscal através do generalizado e impopular aumento de impostos nas rendas pessoais que afetou muito setores da classe média.
Analistas de diversas tendências concordam que as negociações recomeçam com o governo em posição de inferioridade por causa da crise desatada na semana passada. A própria Casa Rosada admite que a repressão foi "brutal". Ninguém quer se responsabilizar pela ação e até agora foram processados somente 14 policiais. O clima reinante no poder central pode ser resumido pela declaração da deputada oficialista Alicia Castro: "Tenho vergonha da Aliança; reprimir os trabalhadores é escandaloso".
O tormento do presidente Fernando de la Rúa ganhou um ingrediente a mais por causa da controvérsia criada com o voto argentino contra Cuba na ONU, pela questão dos direitos humanos, em desacordo com a posição de abstenção defendida sempre pela União Cívica Radical (UCR), que integra a Aliança ao lado da centro-esquerdista Frente País Solidário (Frepaso). Setores do radicalismo, liderados pelo ex-presidente Raúl Alfonsín, ficaram irritados com a votação, que ratificou a posição mantida nos últimos anos por Carlos Menem, um feroz crítico do regime cubano.
Para a revista Notícias, o aborrecimento de Alfonsín, assim como a "desilusão declarada" do vice-presidente Carlos "Chacho" Alvarez, que lidera a ala esquerdista da coalizão, põe De la Rúa em uma posição solitária. Ironia das ironias: o apoio mais sério a De la Rúa pode vir neste momento do seio do peronismo, mais precisamente dos governadores das províncias mais poderosas: Buenos Aires, Córdoba e Santa Fé.
Aliados de Menem - que pretende candidatar-se à presidência em 2003 - foram cautelosos na condenação à repressão, apoiaram abertamente a posição contra Cuba e aprovaram a lei de flexibilização trabalhista. É o caso do braço-direito de Menem, o ex-secretário da presidência Alberto Kohan. Foi um dos poucos a defender a tese da Casa Rosada de que os manifestantes queriam "extorquir" o Parlamento e que a lei de flexibilização tem de ser aprovada para que a economia volte a crescer. Fontes do governo, contudo, acham que esse tipo de apoio "parece o beijo da morte".





