Seul (AE-REUTERS) - No ano passado, o Sr. Kim tinha sua própria fazenda. Pouco tempo depois ele estava vivendo em uma estação de trens de Seul. Kim é um homem sem casa, algo virtualmente desconhecido em seu país por décadas, mas agora um problema crescente conforme a crise econômica da Coréia do Sul cria desemprego em grande escala.
A maioria é de homens que perderam seus empregos. Outros, como Kim, que não quiseram dar seus nomes completos, disseram que suas fazendas foram destruídas por enchentes no ano passado. Muitos perderam o orgulho e alguns perderam até mesmo suas esposas. "Não podemos voltar para casa a menos que encontremos um modo de ganhar a vida", disse um homem que pediu para não ser identificado. "Você acha que nossas esposas e filhos nos aceitarão?". Em um país que segue os preceitos de Confúcio, onde sustentar a família é considerado o principal dever de um marido e pai, as esposas não toleram um marido sem emprego, ele disse.
Elas os deixam e levam as crianças, disse o homem, um residente da Casa da Liberdade, um novo abrigo municipal para os sem-teto onde Kim também está hospedado. Kim, em seus quarenta anos, não é casado. Ele veio para Seul de Paju, que fica 40 quilômetros ao norte, seis meses atrás para procurar emprego. "Todos os meus porcos foram levados pelas águas e eu não tinha mais o que fazer", ele disse. Durante cinco meses ele viveu na principal estação de trens de Seul. Mas algumas semanas atrás ele e outros 1.300 homens foram forçados a ir para a Casa da Liberdade depois que Seul baniu os sem- teto das estações de trens e metrôs. "Não tenho problemas em viver aqui. O quarto é quente", disse Kim.
Até o ano passado os sem-teto e desempregados eram raros durante a explosão econômica da Coréia do Sul no pós-guerra. Isso mudou depois que uma queda no valor da moeda won no final de 1997 deu início a uma profunda recessão e atirou centenas de milhares de pessoas para fora de seus empregos. Os números de desabrigados ainda são modestos comparados com muitos países. Cerca de 6 mil pessoas não têm casa na Coréia do Sul, de acordo com estimativas do Ministério da Saúde e Bem-Estar Social, incluindo 4.700 em Seul. Mas a visão de pessoas sem lar mendigando por comida choca muitos na Coréia do Sul, que desfrutou de três décadas de crescimento econômico da ordem de 8% ao ano e uma economia que provia emprego total em várias definições.
Antes da crise, os sem-teto na Coréia do Sul eram quase todos vagabundos. Agora entre eles há fazendeiros e homens de negócios. No abrigo, homens em agasalhos de corrida se colocam todos os dias em uma longa fila, esperando por uma refeição quente. Depois do almoço, alguns jogam basquete. Outros conversam, fumam ou olham para o vazio. Em todo o país, a taxa de desemprego subiu para cerca de 8%. No final de 1998, 1,67 milhão de pessoas deixaram seus empregos, mais do que o triplo dos 556 mil desempregados um ano antes.
Os abrigos para sem-teto são um fenômeno novo na Coréia do Sul. O administrador da Casa da Liberdade é otimista e acha que o problema não será permanente. "O aumento no número de sem-teto é uma situação temporária provocada pelo FMI", disse o administrador Choi Sung-nam, se referindo à aceitação da Coréia do Sul de uma ajuda financeira em massa do Fundo Monetário Internacional em dezembro de 1997. O acordo com o FMI exigiu que a Coréia do Sul fizesse duras reformas econômicas que deixaram muitos sem emprego. Dos 1.300 homens que vivem na Casa da Liberdade, cerca de 500 saem cedo para procurar outro emprego. A maioria volta no final da manhã, disse Choi. "O Escritório de Florestamento está recrutando cerca de mil pessoas para cortar árvores em março e está coletando inscrições", ele disse.
O governo disse que quer criar entre 400 mil e 500 mil empregos este ano gastando investimentos governamentais em projetos de obras públicas. Jung Won-oh, um professor de bem-estar social na Universidade Sungkonghoe, disse que o número de sem-teto não é tão alto comparado com outros países. "Mas eles se tornaram notáveis depois da recessão porque começaram a viver em grupos em locais públicos", ele disse. A cidade pediu à Universidade Sungkonghoe que administrasse o abrigo de cinco andares, que tem cerca de 70 quartos-dormitórios com entre 16 e 19 pessoas em cada quarto. Um residente da Casa da Liberdade disse que a vontade de trabalhar não falta entre os que estão no abrigo. "Espero que o governo crie mais empregos para que possamos recuperar nossos espíritos", ele disse.

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