São Paulo, 28 (AE) - Cansados e ainda abatidos, os sem-teto que ocupavam o prédio do Banco Nacional, na Líbero Badaró, 89, centro de São Paulo, lembravam-se dos momentos passados ontem, na ação de desocupação do imóvel, quando uma pessoa ficou ferida e outras cinco foram presas. Só hoje à tarde
porém, uma parte dos invasores - pelo menos 40 pessoas - foi levada para um acampamento do Estado, improvisado, na Mooca. As demais, foram para casas de parentes e amigos.
A reintegração do posse, determinada pela Justiça, estava marcada para as 7 horas de ontem. Cem policiais militares cercaram o prédio, ocupado desde agosto. As 80 famílias montaram barricadas e resistiram. O conflito estendeu-se até as 18 horas, quando o juiz Virgílio de Oliveira Júnior, da 39.ª Vara Cível, determinou a suspensão da retirada por 24 horas.
Hoje, no fim da manhã, Aliete Pereira da Silva, de 38 anos, continuava no prédio à espera da transferência. Há algum tempo sem trabalho, separada do marido e com dois filhos, ela se mostrava sem esperança, mas estava mais calma. "Na hora da confusão, só pensei na Juliana", disse, referindo-se à filha de 11 anos que tem catarata em um dos olhos. "Morei 14 anos na Rua Barão de Limeira e se estou aqui é porque não tenho alternativa".
Aliete disse que ela e os filhos ficaram horas sem comer. Além disso, o banheiro foi lacrado pelos policiais militares. Como ela, outras famílias permaneciam no prédio. Na frente do edifício restavam pedaços de madeira. No segundo andar
crianças brincavam no lixo. Com um prato de arroz e feijão na mão, Cleudes Maria da Conceição, de 28 anos, alimentava os filhos Igor, de 1 ano, Nathan, de 4, e Eledinalva, de 7.
"Eles não estão muito bem de saúde depois de tudo o que houve, principalmente o Nathan". O menino, segundo ela, ficou traumatizado. Ao menor barulho, ele mostrava inquietação ou chorava. "Dormimos toda a noite passada no chão, sem cobertas, com muito frio", contou Cleusa, desempregada há quatro meses. Ela não tinha idéia de onde poderiam estar seus poucos móveis. "Acho que estão em algum depósito".
Às 13h30, os sem-teto foram retirados do prédio, sob a supervisão do oficial de Justiça, e levados para o acampamento improvisado na Avenida Presidente Wilson, 3.652, na Mooca. Lá, segundo a Assessoria de Imprensa da Secretaria Estadual da Habitação, a Defesa Civil se encarregaria de instalar seis barracas de lona que serviriam de alojamento. O terreno estava com mato alto e ainda molhado pela última enchente.

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