São Paulo, 14 (AE) - Dezenas de sem-teto invadiram hoje o prédio da Secretaria da Habitação, na Avenida Faria Lima, e ocuparam o saguão até a noite. Segundo a União dos Movimentos para Moradia, eram cerca de 700 sem-teto nas imediações e dentro do edifício. Na avaliação da Polícia Militar não passavam de 300. No meio da tarde, em confronto com os policiais militares, alguns sem-teto se machucaram.
Eles começaram a chegar às 11 horas. Queriam a resposta prometida para hoje às reivindicações feitas em março, durante manifestação no Palácio dos Bandeirantes. Uma comissão foi recebida na secretaria, mas a proposta de 400 moradias foi considerada "ridícula" pelo movimento. "Temos 20 mil famílias sem-teto", disse a coordenadora Evaniza Rodrigues.
Decidiram entrar no prédio. A PM foi chamada. Dez policiais ficaram na recepção, impedindo que os sem-teto alcançassem os elevadores. Mulheres com crianças sentaram-se no chão. Outros, de pé, cantavam palavras de ordem. Eram muitos e bem próximos dos policiais. Acabaram levando empurrões e golpes de cassetete.
Evaniza e outros líderes usaram o balcão da recepção como palanque para conter os ânimos. "Foi ele que me bateu", apontou uma sem-teto, de dedo em riste para um policial. "Calma
calma!", gritava Evaniza. Fazia muito calor no saguão, pessoas fumavam. Uma longa fila se formou para se usar o banheiro da secretaria. Lá fora, as mulheres mais jovens dançavam pagode aproveitando o carro de som.
Sentada no meio-fio, Rute Bispo dos Santos, de 18 anos, mãe de três filhos e grávida de novo, que mora em um prédio invadido na Rua Riachuelo, reclamava: "A gente vem em paz e vai embora apanhando." Uma vizinha dela, ¶ngela Maria da Silva, levou três dos seis filhos, a nora e uma neta para a manifestação. "Vim contando com uma decisão certa, e nada."
Encostada na parede do saguão, com o filho de quatro meses no colo e mais dois agarrados, Dicéa Barbosa Souza, de 28 anos, estava preocupada. Ela saiu de casa, em um terreno de invasão, na Vila Albertina, de manhã, deixou o filho de 4 anos na escola e já deveria ter voltado. "Nem estou ligando para a chuva, só penso no menino." Jovelina Costa Pinheiro, de 54 anos, que mora na Rua Itapeva, em um prédio da família Matarazzo, quer sair de lá para a casa própria.
Por volta das 20 horas, após nova rodada de negociação, os sem-teto conseguiram a promessa de 800 moradias.

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