Dois sem-teto morreram a tiros e cerca de 40 ficaram feridos, na manhã de ontem, durante um confronto entre a Polícia Militar de Minas Gerais e sem-teto acampados em um terreno da Prefeitura de Betim (região metropolitana de Belo Horizonte). Os dois lados envolvidos negam que tenham provocado as mortes. A PM afirma que usou apenas balas de borracha e os sem-teto dizem que não têm armas de fogo.
A PM foi chamada para cumprir o mandado de reintegração de posse do terreno de 1,2 milhão de metros quadrados, localizado na antiga fazenda Bandeirinhas, a pedido da prefeitura. O juiz Marco Aurélio Ferrara Marcolino suspendeu a decisão no final da tarde de ontem por sete dias, mas não a decisão de reintegração de posse.
Cerca de 600 pessoas ocupam o terreno, batizado de Vila Bandeira Vermelha, desde o último dia 15 de março, organizados pela Liga Camponesa e Operária, pela Luta Popular pela Moradia e pelo Movimento de Comissões de Luta.
O oficial de Justiça Cristiano Henriques disse que o confronto começou às 8h40, 20 minutos após a chegada da PM. Cerca de 150 homens participaram da operação desde o início. Mais tarde, houve um reforço de mais 50 policiais.
O confronto começou depois que um trator da prefeitura desmatava um terreno próximo à entrada do acampamento e seu motorista foi atingido por um coquetel molotov arremessado de dentro da mata. O motorista José Vieira da Silva, 65, disse que o coquetel molotov veio da direção do acampamento e caiu a seus pés.
O major Alexandre Lucas Alves, um dos comandantes da operação policial, disse que também foi ouvido um estampido de arma de fogo, vindo do lado do acampamento, e os policiais revidaram com tiros de bala de borracha. Segundo os sem-teto, a polícia invadiu o terreno atirando e ferindo homens, mulheres e crianças.
O confronto terminou 20 minutos depois, com a ocupação pela PM de uma barraca de lona, localizada na entrada do acampamento. Uma fita de vídeo exibida pela prefeitura de Betim registrou momentos da tentativa de desocupação, mas não esclarece quem começou o confronto. Mostra, no entanto, que os policiais não chegaram atirando.
O servente de pedreiro Erionides Anastácio de Souza, 28, saiu ferido de dentro da mata com um tiro na nuca e foi socorrido. Ele morreu antes de chegar ao hospital Regional de Betim.
Mais três pessoas foram atendidas com ferimentos a bala no hospital de Betim, inclusive o sem-teto Elder Gonçalves de Souza, 24, ferido no tórax e na perna. Ele teve rompimento da aorta e morreu no final da tarde de ontem após ser submetido a uma operação.
Um tenente, identificado apenas como Couto, foi ferido por um coquetel molotov. Pelo menos três sem-teto foram hospitalizados. O major afirmou que os policiais tinham ordem para usar somente balas de borracha e bombas de efeito moral.
Os sem-teto e a direção da Liga Operária e Camponesa, entidade sindical que apóia a ocupação do terreno, disseram que não há armas de fogo no interior do acampamento.

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