Sem-teto montam barricada para resistir a despejo; são retirados mas juiz suspende desocupação
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2000
Por Adriana de Barros Machado 
São Paulo, 27 (AE) - A barricada montada com pedaços de madeira, roupas, objetos pessoais e até banheiras de bebês em frente da entrada do prédio revelava a disposição de resistir. Ela havia sido feita pelas 80 famílias de sem-teto que desde agosto estavam ocupando o prédio de número 89 da Rua Libero Badaró, no centro de São Paulo, para tentar resistir à ordem de despejo que estava para ser executada pela Polícia Militar.
Eram 7 horas. Os cem policiais do 7.º Batalhão da Tropa de Chose posicionavam-se na frente do prédio. A ordem era invadir. Das janelas do segundo andar, Luiz Gonzaga da Silva, o Gegê, nomeado líder dos invasores, gritava para os curiosos, policiais e políticos que se aglomeravam na rua. Ele dizia que os invasores não deixariam o local de jeito nenhum. "Se as autoridades quiserem conversar conosco, que subam até aqui".
Prontamente duas escadas de madeira, amarradas com um barbante, foram colocadas na janela. Nelas subiram o deputado estadual Paulo Teixeira (PT); o coordenador da Pastoral da Moradia, Vidal Enrique; o advogado do Movimento de Moradia do Centro (MMC), Rogério Florência da Silva, e o comissário de menores da Vara da Infância e Juventude Walter Peceniski. Tensão - Dentro do prédio o clima era muito tenso. Gegê e uma dezena de homens negociavam com as autoridades. No último andar, 80 pessoas, entre elas 30 crianças, idosos e mulheres grávidas, pediam ajuda. Muitos estavam deitados em colchões e camas improvisadas, em condições precárias de higiene. Enquanto os soldados da Tropa de Choque retiravam os entulhos da porta principal, alguns manifestantes, das janelas do segundo andar, jogavam água nos policiais. Na rua, um dos simpatizantes do MMC olhou para cima e gritou: "Joga o coquetel molotov". Ele e mais quatro pessoas foram levadas para o 1.º DP. Fumaça - Minutos depois, a Tropa de Choque invadiu o local. Os policiais foram recebidos com pedras, paus e pedaços de sabão. Uma bomba de efeito moral foi jogada e a fumaça tomou conta de todos os andares. Pais e mães jogavam água e leite no rosto dos filhos para amenizar a ardência dos olhos. "Socorro, me tirem daqui", implorava um menino no canto da sala. Num ato desesperado, o pintor desempregado Giovan Machado de Souza, de 35 anos, ameaçava jogar seu filho de 4 meses da janela como forma de pressão. "Coloquei o bebê na janela para ele tomar ar", se desculpava, momentos depois. Acordo - Uma hora depois de terem sido retirados pela PM, os ocupantes do prédio retornaram ao imóvel. O juiz Virgílio de Oliveira Júnior, da 39.ª Vara Cível, determinou às 18 horas a suspensão do despejo até 18 horas de amanhã (28). A decisão pegou de surpresa os cerca de 150 PMs que cumpriam a ordem de despejo, que saíram vaiados pelos militantes do MMC.
A Secretaria Estadual de Habitação ofereceu um terreno de 4 mil metros quadrados, de propriedade do Estado, na Avenida Presidente Wilson, 3.657, na Mooca, na zona leste, para alojá-los provisoriamente. Eles deverão ficar em barracas da Defesa Civil. O juiz que ordenou a suspensão do despejo foi o mesmo que expediu a ordem de reintegração do prédio, que pertence à massa falida do extinto Banco Nacional.
Segundo o deputado Teixeira, a suspensão ocorreu a pedido do secretário estadual de Habitação, Francisco Prado, que recebeu ordem do governador Mário Covas. (Colaborou Moacir Assunção)


