Sem-teto já ocupam 27 prédios em SP
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sexta-feira, 05 de novembro de 1999
Por Alceu Luís Castilho e Uilson Paiva 
São Paulo, 06 (AE) - Está em curso a maior demonstração de força dos grupos de sem-teto, desde seu surgimento no fim da década de 80, em São Paulo. Depois de dez ocupações promovidas no mês passado, hoje são pelo menos 27 os prédios ocupados com fins declaradamente políticos na capital. As ações estão sendo conduzidas no centro da cidade por três movimentos pró-moradia. Na periferia, as ocupações de unidades em construção da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) são feitas por grupos isolados.
Com a ofensiva estratégica, os três grupos que agem no centro estão conseguindo pautar as ações do governo do Estado e da Prefeitura e forçar a discussão sobre habitação popular. Um levantamento feito pelas próprias associações de sem-teto indica a existência de cerca de cem prédios públicos (municipais, estaduais ou federais) abandonados ou desabitados na região central. Incluídos os particulares, esse número pode dobrar. "Estamos prontos para novas ocupações", diz Hamilton Sílvio de Souza, coordenador-geral do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto da Região Central. O Sindicato dos Trabalhadores da Economia Informal - um dos que agregam ambulantes na cidade - segue o mesmo rumo.
As novas ocupações têm como novidade exatamente o surgimento de grupos à margem da tradicional União dos Movimentos de Moradia (UMM), que desde 1987 comanda a atuação de sem-tetos e moradores de cortiços em São Paulo. Reconhecida pela Prefeitura e Pastoral da Moradia da Arquidiocese de São Paulo como interlocutora dos sem-teto, a UMM utiliza-se das ocupações - ilegais - como instrumento de pressão política para acelerar mutirões e a compra de prédios para moradores de cortiços.
Mais dispostos ao confronto, os Trabalhadores Sem-Teto e os ambulantes - comandados por José Ricardo Teixeira da Silva, o Alemão - propõem recompensas imediatas a seus integrantes. Em vez do engajamento político sem garantia de benefícios, como ocorre na UMM, oferecem como perspectiva um local imediato para morar - por meio da invasão. Táticas - A ação dos "novos sem-teto" é rápida. A nova ocupação é deflagrada assim que é reunido um número suficiente de famílias. Os alvos escolhidos pelos novos grupos costumam ser prédios abandonados há mais de 10 anos por dívidas ou pendências judiciais. Antes da invasão, são levantados os nomes dos proprietários e sua situação financeira. Muitas vezes é realizado até mesmo um contato para saber da disponibilidade de venda do imóvel. Tudo isso irá nortear a negociação com o Estado.
"Muitos proprietários são convencidos de que farão um bom negócio se o Estado comprar o prédio", afirma Souza. A reivindicação é a de que, além de desapropriar, o governo abre linhas de crédito para financiamento. Mídia - Se o impasse impedir a realização do objetivo, não há perda: o despejo é encarado como um gesto político. Foi o caso da ocupação de um prédio na Rua Riachuelo pelos sem-teto da região central, em 1998. Retirados em cumprimento a uma ordem judicial pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar, os sem-teto colocaram os móveis e pertences na calçada, onde passaram cinco dias. "É uma tática simples: ficamos no meio do caminho de desembargadores, advogados, na cara da opinião pública e forçamos o governo a arrumar alguma solução", ressalta Souza.
A necessidade de repercussão na mídia é um ponto em comum entre os três grupos. A UMM - que condena as ações do grupo de Souza - considerou negativo o fato de as seis ocupações simultâneas da madrugada do dia 25 terem ocorrido logo após a maior rebelião da história da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem). A escolha para a invasão da nova sede do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), cuja obra está embargada por irregularidades, foi, exatamente, para chamar a atenção da imprensa.


