Numa manifestação inédita, cerca de 150 trabalhadores sem-teto, estudantes, moradores de favelas e até punks ‘‘passearam’’ pelo Shopping Rio Sul, um dos mais frequentados na cidade, em Botafogo, na zona sul, para protestar contra a desigualdade social e o consumismo.
Durante cinco horas, eles visitaram lojas, experimentaram roupas, comeram pão com mortadela e beberam tubaína (refrigerante de marca desconhecida) na Praça da Alimentação. No fim da tarde, o grupo dirigiu-se ao Palácio Guanabara, sede do governo.
‘‘A intenção é incomodar, trazer um pouco da realidade para o centro de consumo’’, afirmou André Fernandes, um dos coordenadores da Frente de Luta Popular, que organizou a manifestação.
O grupo entrou no shopping às 11 horas, quando moradores do Acampamento Araguaia, na zona oeste, chegaram em dois ônibus. Do lado de fora, 45 policiais militares ficaram a postos, para o caso de confusão. No centro comercial, 120 seguranças se dividiram entre os seis andares do shopping.
A entrada dos sem-teto assustou os frequentadores do local. ‘‘É o fim do mundo’’, exclamou a dona de casa Anne da Rocha, de 43 anos. ‘‘Esses sem-terra quiseram entrar na minha fazenda em Minas Gerais mas eu jamais esperaria encontrar esse povo aqui.’’ Ela desistiu de lanchar na Praça de Alimentação, ocupada pelos manifestantes.
O industriário Maurício Castro, de 40 anos, almoçava, quando três sem-teto sentaram-se à sua mesa. ‘‘É uma situação inédita, constrangedora, mas nada que seja assustador’’, afirmou, sem interromper a refeição.
Os manifestantes entraram em lojas e provocando tumulto em algumas. Na Richard’s, os vendedores se irritaram quando um sem-teto queixou-se do preço de uma calça, que custava R$ 129. ‘‘Eu tenho de trabalhar dois meses, sem alimentar meus filhos para comprar essa calça’’, afirmou o biscateiro Roberto da Silva Leandro, de 22 anos, pai de três filhos. Um vendedor respondeu que ‘‘ali era loja de rico’’. E completou, antes de ameaçar dar uns ‘‘boxes’’ no manifestante: ‘‘É por isso que as coisas têm de ser como são.’’ Ele foi obrigado a pedir desculpas pelo comandante do Policiamento da Capital, coronel Fernando Belo.
As crianças divertiram-se com os brinquedos da loja Brinks. A gerente Mary Sarkissian, que permitiu que as crianças andassem em carrinhos, chegou a pensar que a visita dos manifestantes se tratasse de uma estratégia de marketing do shopping para mostrar que não há discriminação no Rio Sul.
O vice-presidente da Associação Brasileira de Shopping
Centers (Abrasce) e diretor de operações do Rio Sul, Cláudio Guaranys, informou que a Abrasce vai entrar com medida cautelar na Justiça, a fim de impedir outras manifestações semelhantes.

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