Sem-teto invadem prédio da prefeitura de Betim
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de abril de 1999
Por Evaldo Magalhães 
Belo Horizonte, 27 (AE) - Centenas de sem-teto e de moradores da periferia de Betim, região metropolitana de Belo Horizonte, invadiram hoje à tarde a sede da prefeitura, quebraram vidraças e gritaram palavras de ordem contra o prefeito Jésus Lima (PT). O protesto foi durante o cortejo de Erionides Anastácio de Souza, de 28 anos, um dos dois homens mortos ontem (26) em confronto entre sem-teto e policiais militares, na fazenda Bandeirinhas, no qual outras duas pessoas pessoas foram feridas à bala.
Acompanhados por um carro de som e liderados por representantes de entidades como a Liga Operária e Camponesa e o Luta pela Moradia (LPM) - que se dizem marxistas, leninistas e maoístas -, os manifestantes chegaram à porta da prefeitura no início da tarde com a intenção de velar o corpo de Erionides no saguão do prédio. Por volta das 15h as mais de 200 pessoas - mil
segundo cálculos de dirigentes da LPM - quebraram 28 vidros da portaria da prefeitura, com latas de lixo e outros objetos.
Os manifestantes entraram e colocaram o caixão do sem-teto sobre o balcão de informações da prefeitura. "O prefeito Jésus é um assassino, fascista; ele é do PT, mas manda a PM matar trabalhadores", gritou Gérson Lima, líder da Liga Operária e Camponesa. Eles ficaram no prédio por cerca de 15 minutos. Pouco depois seis policiais militares chegaram ao local
em uma kombi da corporação, mas os manifestantes já haviam saído.
Enterros - O cortejo seguiu para o cemitério Cachoeira, onde Erionides seria enterrado. A outra vítima do confronto, Élder Gonçalves de Souza, de 24 anos, foi sepultado em Venda Nova, na zona norte de Belo Horizonte.
Na manhã de hoje representantes do Ministério Público, encarregados de tentar encontrar uma solução para o impasse - a Prefeitura, dona do terreno, quer retirar os invasores para construir casas populares no local, destinadas a famílias já cadastradas - reuniram-se com representantes dos sem-teto. Segundo o promotor Geraldo Assagra, não houve acordo, mas foi marcado novo encontro para amanhã (28).
Atacados - Pouco depois da invasão do prédio da administração o prefeito Jésus Lima - que teria sofrido até ameaças de sequestro, por parte dos sem-teto, dias antes do confronto com a PM -, disse em entrevista coletiva que a presença da Polícia Militar no local, na segunda-feira, era para forçar os líderes dos invasores a negociar.
Os policiais teriam sido atacados pelos invasores quando tentavam armar barracas na entrada da fazenda, nas quais seria feito um cadastramento das famílias. Segundo o prefeito, os sem-teto decidiram radicalizar desde as primeiras tentativas de diálogo."Eles é que iniciaram o confronto", afirmou.
Acampamento - No acampamento da Fazenda Bandeirinhas, chamado de "Vila Bandeira Vermelha" pelos sem-teto e ocupada há 43 dias, os mais de 600 invasores cercaram toda a área com arame farpado e barricadas.Encapuzados e armados de paus e facões controlaram durante todo o dia a entrada e saída. "Estamos determinados a ficar aqui e a garantir nosso pedaço de chão", disse um dos ocupantes do terreno, escondido sob um capuz da Liga Operária e Camponesa.
A Polícia Militar, que ontem ameaçou desocupar a área com centenas de homens, abandonou o local ainda na noite de segunda-feira, atendendo a liminar da Justiça de Betim. O juiz Marco Aurélio Ferrara suspendeu por sete dias o mandado de reintegração de posse, concedido ainda em março à Prefeitura.
O comando da corporação nega que tenha iniciado o confronto de segunda-feira. Também rebate a acusação, feita pelos sem-teto, de que seus homens tenham sido responsáveis pelas duas mortes. Apesar disso, o coronel Mauro Lúcio Gontijo determinou abertura de investigações para apurar se os tiros que mataram Erionides e Élder partiram ou não de armas dos militares.


