São Paulo, 14 (AE) - De um lado, sem-teto erguiam casebres em um terreno baldio à procura de um lugar para abrigar-se do frio rígido. Mais adiante, moradores do bairro bloqueavam parte da mesma área com velhos troncos de árvore para impedir o avanço dos invasores. Não que se sentissem incomodados com a nova vizinhança. Queriam garantir um pedaço dessa terra tão cobiçada - para uso próprio. A disputa, que se estendeu por todo o dia de hoje, era por alguns metros quadrados de uma rua: a Monteiro de Faria, em Itaquera, zona leste de São Paulo, atualmente transformada em lixão pelo descaso das autoridades.
A via abandonada pronta para receber invasores ou servir de depósito é apenas mais um exemplo, entre centenas, da ocupação irregular de áreas públicas que deveriam ser usadas em benefício da população. Esse tipo de "grilagem" tornou-se fato corriqueiro na capital e costuma ocorrer com a complacência do poder público, a omissão de regionais e até com o intermédio de vereadores, numa demonstração do loteamento da cidade promovido pelo Executivo, segundo promotores do Ministério Público Estadual que investigam as ocupações. Atualmente, o MPE tem 15 inquéritos instaurados para investigar o uso inadequado desses espaços.
O "lixão" não-oficial, palco da patética batalha entre cidadãos que mal ganham (ou não ganham) o suficiente para pagar um aluguel, pode ser localizado no mapa de São Paulo. Pelo desenho, é possível ver o percurso da via de 7 metros de largura
que nem sequer foi asfaltada.
"Moro aqui no bairro há 15 anos e nunca vi um caminhão da regional por aqui; e já que eles (os sem-teto) podem morar sem pagar nada, também vou garantir o meu", argumentou Antônio Batista Leite, morador de uma rua próxima, desempregado e devedor de meses de aluguel. Ele correu para o local com o intuito de livrar-se de mais uma despesa. "Quem sabe assim eu dou mais comida para os meus filhos."
Até o fim da tarde de hoje, três barracos haviam sido construídos no local. Dentro dos casebres, até cinco famílias dividiam o mesmo teto e uma pia precária. Dormiam em colchões improvisados e faziam vigília com a luz de uma única lâmpada. O motivo da ocupação era o mesmo dos antigos moradores e atuais rivais: falta de dinheiro e desemprego.
A invasão ocorreu na tarde de ontem e, segundo o líder do movimento, continuaria com ou sem a permissão da Administração Regional de Itaquera. Os fiscais do órgão estiveram no local para tentar a desocupação por volta das 11 horas, mas voltaram com a suspeita de que os barracos estavam em área particular. Segundo a agente Rosana Gentil, os casebres estão no primeiro lote particular à direita da "rua". "Por isso não cabe a nós nenhuma atitude", afirmou. "Eles estão só beirando a rua." Que não existe.
Questionado sobre o bloqueio de outros trechos por moradores e sem-teto, que estão claramente na "rua", e sobre o uso inadequado do espaço como depósito de entulho, o administrador regional Edson Bernardes de Castilho, no cargo há 40 dias, afirmou: "A Prefeitura nunca abandonou nada."

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