Sem-terra têm até domingo para desocupar fazenda; juíza ampliou prazo hoje
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de junho de 1999
Por José Maria Tomazela 
Anhembi, SP, 23 (AE) - A juíza Lígia Cristina Berardi Possas, da 1ª. Vara da Comarca de Conchas, estendeu hoje para cinco dias o prazo dado aos sem-terra para a desocupação da Fazenda Boa Esperança, no município de Anhembi, invadida desde segunda-feira. Eles tinham 48 horas para deixar a fazenda, mas depois de uma negociação tensa entre dois oficiais de Justiça, o proprietário da fazenda, Osvaldo Calcidoni, e os líderes dos sem-terra a juíza fixou novo prazo, até domingo. Os invasores negaram-se a aceitar a ordem de desocupação concedida ontem (22) pela juíza, e gritaram palavras de ordem contra os oficiais e o proprietário, protegidos por seis policiais militares. "Só saímos daqui para o assentamento", disse o líder João Paulo Rodrigues, coordenador estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).
Até a tarde de hoje havia 800 pessoas no local, a maioria proveniente do Acampamento Nova Canudos, instalado na beira da Rodovia Castelo Branco, em Porto Feliz, interior de São Paulo. O grupo é o mesmo que bloqueou a rodovia, saqueou três caminhões de alimentos e tomou um policial militar como refém entre os dias 28 e 30 do mês passado. Antes, eles haviam invadido a Fazenda Engenho Dágua, do grupo União São Paulo, de onde foram despejado.
Essa foi a primeira invasão de terra na região de Anhembi, perto da Serra de Botucatu e do lago da Represa de Barra Bonita, formada pelo Rio Tietê, a 235 quilômetros de São Paulo. As fazendas na região são pequenas e médias e a maioria dedica-se à pecuária. A Boa Esperança tem 183 hectares, dos quais 41 estão plantados com milho, 36 com abóbora e 24 com feijão. Há também uma granja de engorda de frangos.
O restante da área é formado por pastagens, que abrigavam 80 cabeças de gado. "Retiramos o gado, porque soubemos que eles costumam matar para fazer churrasco", disse o filho do proprietário, Marcelo Calcidoni. Segundo ele, os sem-terra destruíram a cerca e uma parte das plantações. "Entregamos um caminhão de abóboras para eles, para evitar que estragassem tudo."
Despejo - Caso os sem-terra não deixem a fazenda no fim do prazo, o 12º Batalhão da Polícia Militar de Botucatu fará o despejo. A tropa já participou de ações do gênero na região de Iaras, perto de Avaré, segundo o subcomandante interino, capitão Luis Carlos de Paula. "Mas se houver necessidade, buscaremos o apoio de equipes especializadas, como a cavalaria, o canil e a tropa de choque", disse.
Estratégia - A ação do sem-terra na região de Anhembi foi preparada durante três meses, desde que o grupo deixou a Fazenda Engenho Dágua, em Porto Feliz, em fevereiro. Os coordenadores exibiram hoje mapas e fotos aéreas da região, mostrando detalhes como estradas, carreadores, rios e pontes. Eles possuem também a relação de todos os proprietários de terras na região.
Segundo o líder João Paulo Rodrigues, o MST descobriu por ali pelo menos 9 mil hectares de terras devolutas, atualmente ocupadas por posseiros. Técnicos do movimento estão no campo, tentando identificar as áreas. "Queremos essas terras para assentamentos", disse. A estratégia do MST, explicou, é montar um acampamento central na Boa Esperança ou outra fazenda da região para dar suporte às novas ocupações. "Todas as famílias do Nova Canudos vêm para cá", afirmou.
Rodrigues deu a entender que a ocupação da Boa Esperança
que não é própria para assentamento, faz parte dessa estratégia. Ali os sem-terra estão próximos de fontes de alimento e de água, pois a propriedade é cortada por um rio limpo. A fazenda invadida fica a dez quilômetros de Anhembi.
Hoje quase todo o acampamento de Porto Feliz, que abrigava 1.200 famílias, estava desmontado. A chegada dos sem-terra assustou os 4.500 habitantes de Anhembi. O prefeito Geraldo Conceição Cunha (PSDB) disse que a cidade não tem estrutura para atender a tanta gente. "Se precisarem de médico e escola, não sei o que vamos fazer." Fazendeiros da região também estão assustados, segundo o prefeito. "Como os sítios são todos produtivos, ninguém esperava a ação dos sem-terra por aqui", disse.


