Sem-terra soltam bois mas não deixam fazenda
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segunda-feira, 04 de agosto de 1997
Agência Estado Campo Grande 
As famílias de sem-terra que ocupam a Fazenda Mestiço, em Itaquiraí (a 470 quilômetros de Campo Grande-MS) desde o dia 16 de julho, libertaram os 470 bois que estavam confinados na área, mas não retornaram ao acampamento na BR-163 porque o Incra não entregou as cestas básicas, como havia sido acertado em reunião entre representantes do Incra, do governo estadual e dos sem-terra, na semana passada. No acordo, os sem-terra se comprometiam em libertar os bois e desocupar a fazenda em troca de cerca de três mil cestas básicas.
Com a falta de comida, os sem-terra ameaçam novos saques contra caminhões que transportam alimentos na região da fazenda, que fica a cinco quilômetros de um acampamento de sem-terra armado nas margens da BR-163. Eles já saquearam oito caminhões carregados com alimentos. O último ataque foi registrado no dia 18 de julho, quando foram saqueados quatro caminhões que estavam carregados com arroz, açúcar e carne bovina, que seriam entregues nos supermercados da região.
O governador Wilson Barbosa Martins (PMDB) considera preocupante a ação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Mato Grosso do Sul, mas garantiu que a situação está sob controle. Ele lembrou que das 36 ocupações de fazendas ocorridas este ano no Estado, em nenhuma foi usada força policial nas desocupações e diz que está disposto a ajudar os sem-terra no que for possível, mas dentro da legalidade.
Martins afirmou que condena todo e qualquer radicalismo e não vai mais negociar o fornecimento de alimentos ou qualquer outra providência que o Estado deve adotar em favor dos sem-terra, até que eles acabem com os saques e as ocupações. Para Antônio Pinheiro, um dos líderes do MST, esse posicionamento é perigoso, já que as ocupações são inevitáveis e o controle dessas atitudes está completamente fora das mãos do governo.
Ele lembrou que até agora o Incra implantou várias favelas rurais que teima de chamar de assentamento para sem-terra, citando como exemplo a Fazenda Andalúcia, no município de Nioaque, onde os materiais para construção das casas dos assentados estão sendo acumulados na entrada da fazenda, pois não existem estradas que permitam o transporte dessas mercadorias até o lote de cada um dos trabalhadores rurais.


