Sem-terra se reforçam para resistir a tentativa de desocupação do Incra
Salvador, 22 (AE) - Os trabalhadores sem-terra que ocupam há seis dias a sede da Superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Salvador receberam o reforço de mais um contingente de 50 integrantes do movimento, que chegaram em um ônibus, para ampliar a resistência a uma possível invasão da área pela Polícia Federal.
Até o final da manhã de hoje os cerca de 450 sem-terra se recusavam a cumprir o mandado de reintegração de posse expedido pelo juiz federal Mozart Ferraz. A Polícia Federal pediu reforço da Polícia Militar para tentar desocupar o prédio, mas o governador César Borges (PFL-BA) decidiu adiar a ação de retirada dos sem-terra possivelmente por causa das comemorações pelos 500 anos do descobrimento do Brasil. O cumprimento do mandado judicial, pela força, poderia ter uma repercussão negativa em meio à festa promovida pelo governo para os 500 anos do Brasil.
Embora a retirada dos sem-terra tenha sido adiada, as viaturas da Polícia continuam circulando nas imediações da sede do Incra, que fica no Centro Administrativo da Bahia, em um local de pouca movimentação de veículos.
Os sem-terra afirmam que só deixam o prédio, depois de serem recebidos em audiência pelo ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann. Eles exigem mais dinheiro para os assentamentos, rapidez nas vistorias de fazendas ocupadas e punição aos responsáveis pelo massacre de sem-terra no Pará.
Segundo a direção do Movimento dos Sem-Terra (MST), que organiza a ocupação, atualmente 360 áreas precisam de vistoria no interior baiano, mas os oito técnicos do Incra só programaram a avaliação de 36 delas, ou exatos 10% do total.
No orçamento do Incra para a Bahia, está prevista a liberação de R$ 7 milhões em infra-estrutura para os assentamentos, metade do que os manifestantes calculam ser necessário para aplicação em habitação, rede de água e esgotamento sanitário, iluminação, entre outros ítens.
Os sem-terra vieram da região da Chapada Diamantina, do Recôncavo e do Norte do Estado. A maioria é dos municípios de Santo Amaro e Casa Nova. A sede do Incra foi invadida segunda-feira, quando quatro servidores foram mantidos reféns pelos manifestantes e libertados somente no dia seguinte.
Os trabalhadores fazem barulho, batendo com barras de ferro, facões e foices nas grades da sede do Incra, enquanto cantam hinos de exaltação ao movimento. Uma das lideranças, Jailson Santos, disse que o mandado de reintegração de posse não foi reconhecido porque, segundo ele, iria revoltar ainda mais os sem-terra. "Nosso caso não é de polícia e não recebemos o papel
porque não queremos assumir responsabilidade pelo que acontecer no prédio", disse.





