Sem-terra são feridos durante tentativa de invasão de fazenda em Minas
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sexta-feira, 31 de dezembro de 1999
Por Ana Lúcia Gonçalves (do Hoje em Dia, especial para a AE) 
Galiléia, MG, 30 (AE-HOJE EM DIA) - Dois sem-terra estão internados em estado grave no hospital regional de Governador Valadares, após serem feridos a tiros durante tentativa de invasão de fazenda em Galiléia, no Vale do Rio Doce. Trinta e cinco fam lias sem-terra, num total de 120 pessoas e entre elas 38 crianças, tentaram na madrugada de hoje invadir a fazenda e foram recebidas a tiros pelos seguranças. Quatro l deres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram presos. Eles garantem que não trocaram tiros com os seguranças e que foram v timas de uma emboscada. A PM encontrou 16 armas de fogo carregadas e farta munição em seus caminhes. Sete cartuchos de arma calibre 32 estavam deflagrados. As armas serão periciadas.
A fazenda Córrego Branco, localizada no distrito de Conceição das Laranjeiras, em Galiléia, pertence ao fazendeiro Said Mansur e foi vistoriada pelo Incra para fins de reforma agrária há cerca de um mês. Há 15 dias, a família procurou o comandante do 6º Batalhão de Polícia Militar em Governador Valadares, Luiz Carlos Albino, para informar sobre a preocupação com uma possível invasão pelos sem-terra. A PM intensificou o policiamento nas proximidades da fazenda, mas não conseguiu impedir o conflito.
As fam lias de sem-terra que tentaram invadir a Córrego Branco são as mesmas que ocuparam uma área de 21 mil hectares da Acesita Energética, em Periquito, também no Vale do Rio Doce, no dia 10 de maio de 1998. Elas chegaram à Galiléia em dois ônibus da Viação Torres, que foram alugados por R$ 300,00, três caminhões e três carros particulares. Segundo um dos líderes preso, Brasilino Moreira da Silva, 32 anos, quando chegaram à fazenda, por volta das 3h50, vários homens fecharam a entrada formando uma parede humana.
Os sem-terra teriam descido para conversar com os seguranças e depois disso decidido voltar para trás, mas nesse momento os homens teriam efetuado vários disparos contra eles. "Atiraram pelas costas", conta Brasilino. Uma das balas, de calibre ainda não identificado, atingiu Alan Carlos Garcia. A bala atravessou o braço esquerdo e se alojou no tórax.
O outro sem-terra baleado é Paulo Papa da Silva, que levou um tiro na coxa. A bala provocou lesão na artéria femural direita do sem-terra, que perdeu muito sangue e estava na UTI. Os dois correm risco de vida. Um dos cirurgies que operaram os sem-terra, Marcos Wagner, informou que o estado dos dois pacientes é grave e que teria se complicado devido ao atraso no socorro. Eles foram encaminhados para o hospital depois das 7 horas e operados por volta das 9 horas.
Até o início da tarde, os sem-terra se recusavam a sair das margens da MGT-259, próximo à fazenda e retornar para Periquito. Os homens que atiraram no sem-terra não foram localizados pela polícia, que hoje de manhã esteve na fazenda. Segundo o comandante do 6º Batalhão de Polícia Militar, Luiz Carlos Albino
apenas a família Mansur, proprietária da fazenda foi encontrada. O sem-terra Hélcio Martins de Oliveira, 36 anos, um dos líderes presos, garante poder identificar os atiradores, mas nao quis acompanhar a PM até a fazenda. "Quem é que vai garantir a minha vida e de minha família depois. Se algum for preso, vai ser solto?", justificou o sem-terra. Segundo o comandante, os homens da fazenda sabiam da invasao e utilizaram um trator para bloquear a estrada.
Os quatro líderes presos, Brasilino Moreira da Silva, Luiz Artur da Costa, Valéria Cristina Ribeiro e Oliveira foram indiciados por posse ilegal de armas e por co-autoria da invasão.
Os líderes foram indiciados, segundo o comandante, porque nao foi possível individualizar os donos das armas. Nos pertences dos sem-terra foram encontradas 16 armas de fogo, sendo 9 espingardas, dois revólveres calibre 22 e 5 garruchas, todas carregadas.


