A Polícia Militar do Paraná realizou ontem o despejo de 36 famílias que ocupavam há 14 anos a Fazenda Solidor, em Espigão Alto do Iguaçu (150 quilômetros de Cascavel, no Sudoeste do Paraná). Durante a desocupação houve início de confronto, mas a polícia conseguiu desmobilizar o sem-terra com o uso de bombas de efeito moral.
A fazenda, com 286 alqueires, pertence à família Bonotto, que obteve o direito à reintegração de posse através de recurso no Supremo Tribunal Federal. Para tentar evitar a desocupação o MST mobilizou cerca de 300 agricultores de assentamentos vizinhos. ‘‘Que tipo de reforma agrária é essa que o governo diz que vai fazer? Nós estávamos no local há 14 anos e construímos toda a nossa vida ali’’, questionou o agricultor Maurílio Silveira Borges, preso em flagrante durante a ação policial. Outros seis agricultores foram presos por porte ilegal de arma.
‘‘O que a gente tinha eram algumas armas de caça’’, defendeu-se o agricultor. O delegado Italo Biancardi Neto, de Quedas do Iguaçu, para onde os agricultores foram levados, arbitrou fiança de um salário mínimo – menos para um deles, que respondia em liberdade por crime de furto. Como os agricultores alegaram não ter dinheiro para a fiança, discutia-se no final da tarde a possibilidade de remoção para Cascavel, por medida de segurança.
A indignação do MST com a desocupação foi pelo fato das famílias terem permanecido no local, pacificamente, durante 14 anos. Até financiamentos do governo o grupo já havia obtido, quitando regularmente todas as dívidas, inclusive as tributárias. Todos tinham casa com toda a infra-estrutura, animais de criação e implementos agrícolas.
Das 36 famílias, quatro saíram pacificamente. A saída das outras 32 foi impedida pelos sem-terra que chegaram ao local vindos dos assentamentos Bacia ᖠárea que pertence à fazenda Araupel, em Quedas do Iguaçu – e Ireno Alves, em Rio Bonito do Iguaçu. Os sem-terra tentaram barrar a saída de caminhões que transportavam móveis dos desalojados.
O impasse se estendeu até o início da noite. Sem-terra armados com foices e pedaços de pau afrontavam verbalmente os policias, que se enfileiravam na entrada da fazenda, para impedir o avanço dos manifestantes.
A solução do impasse estava sendo negociada entre uma advogada do MST de Laranjeiras do Sul, Cristiane de Lima Martins, e o comandante do 6º BPM de Cascavel, tenente-coronel Amauri Ferreira de Lima. A negociação foi acompanhada pelo promotor Cláudio Cesar Cortesia e pelo juiz
Mauro Mondin, ambos da Comarca de Quedas do Iguaçu.
Em contato com o Incra, em Curitiba, a advogada obteve do órgão a disposição de assentar as famílias despejadas em outra área, a ser definida em 90 dias. ‘‘Enquanto isso as famílias ficariam no Assentamento Ireno Alves’’, afirmou a advogada. Não se falou em indenização da infra-estrutura dos agricultores. As famílias deixaram o local por volta das 21 horas.

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