Anhembi, SP, 05 (AE) - As 1,2 mil famílias de sem-terra despejadas hoje da área urbana de Anhembi e transferidas para o município de Piracicaba vão voltar em 60 dias, segundo o coordenador nacional do Movimento dos Sem-Terra (MST). "Estamos dando uma trégua, mas podem esperar nosso retorno", avisou o coordenador nacional Gilmar Mauro. Segundo ele, esse é o prazo para que o Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) discrimine as terras devolutas existentes na região e as destine para assentamento das famílias. "Se o Itesp não fizer isso, estará rompendo o acordo e vamos fazer novas ocupações."
Segundo Mauro, o MST pedirá ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a vistoria de fazendas da região consideradas improdutivas. "Temos uma relação de áreas que serão apontadas para vistoria." Ele incluiu, entre as terras que seriam improdutivas, fazendas de gado e usinas de cana-de-açúcar. "Tem várias usinas abandonadas." A Polícia Militar mobilizou 464 policiais, entre eles 170 homens do Batalhão da Tropa de Choque da Capital, 86 viaturas e um helicóptero para a operação.
A tropa teve o apoio de 60 cavalos e 83 cães. A chegada do contingente, às 6 horas, agitou a cidade, encoberta pela neblina do Rio Tietê. Centenas de moradores levantaram cedo para acompanhar a movimentação. Militantes do MST, com foices e facões, bloquearam o portão do estádio e acessos do acampamento. A PM interditou isolou a área.
O comandante do 12º Batalhão da Polícia Militar, major João Francisco Antunes, negociou a entrada de dois oficiais de justiça para a leitura do mandado de despejo, assinado pela juíza Lígia Cristina Berardi Possas, de Conchas. "Esperamos que a juíza tenha a mesma agilidade para dar a tutela antecipada das áreas devolutas ao Estado", disse Mauro. Ele informou o comandante da 3º Batalhão de Choque, tenente-coronel Paes de Lira, que os sem-terra iriam desmontar os barracos e transferir-se para uma faixa de 40 mil metros quadrados na beira da Rodovia Samuel de Castro Neves (SP-147), que liga Anhembi a Piracicaba.
Não seria uma nova invasão: o terreno, que pertence ao Departamento de Estradas de Rodagem (DER), tem água e madeira, foi definido depois de negociações que envolveram a prefeitura e o Governo do Estado. "Quero a garantia de que amanhã a PM não estará lá para nos despejar", exigiu o líder. O vereador Mauro Cunha (PSDB), irmão do prefeito, disse que a área fora cedida pelo DER.
"Temos a garantia do governador", assegurou. A prefeitura garantiu também caminhões e ônibus para o transporte. "A condução foi requisitada pela PM", afirmou Cunha.
O sem-terra Joel Oliveira da Silva, 37, com seis filhos, todos pequenos, reclamava da quarta mudança desde que aderiu ao MST, há seis meses. "Estou parecendo cigano." Maria Cecília Barbosa, de 46 anos, desmontava o barraco inconformada. "Vamos transferir nosso título e derrubar esse prefeito." Ela prometeu candidatar-se a vereadora na cidade. Seu marido, Leonardo de Souza, 47, é o sanfoneiro do acampamento. Luís Hipólito, de 43 anos, e sua mulher Sônia foram os primeiros a terminar o desmonte. "Espero fazer só mais uma mudança, definitiva", disse ele, pai de três filhos. Crianças como as meninas Saiara Inácio de Oliveira, de 6 anos, e as irmãs Débora, de 9, e Patrícia, de 10, brincavam entre as tralhas, indiferentes ao drama dos adultos.
Moradores observavam de longe a movimentação. "São pessoas como a gente, mas a cidade não tem estrutura para eles e quem deve fazer alguma coisa é o governo", disse a cabeleireira Dirce Jorge Justo.
O analista de processos agrários do Itesp, Gustavo Giroti Biajoli, disse que o órgão iniciou o trabalho de levantamento das áreas devolutas, que podem totalizar 3,8 mil hectares. Não há garantia de que as terras estejam disponíveis, segundo ele. "Toda a área ou parte dela pode ter sido legalizada." O prefeito Geraldo Conceição Cunha (PSDB), que pediu o despejo dos sem-terra, disse que vai avaliar os prejuízos trazidos à cidade durante os 14 dias de ocupação e pedir ajuda ao governador. "Além dos gastos com comida e condução, estamos com o estoque de remédios zerado."
O comandante do Batalhão de Choque disse que pretende apresentar uma planilha de custos à Procuradoria Geral do Estado para que exija do MST o ressarcimento dos gastos. "Ainda não tenho o valor, mas a despesa poderia ter sido evitada." O líder Gilmar Mauro afirmou que o MST também pode processar o prefeito por discriminação. "Fomos tratados como alienígenas."

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