Sem-terra reafirmam: houve tortura e violência
Maigue Gueths
Os seis sem-terra que estavam presos no presídio de Ponta Grossa e foram soltos na quinta-feira, reafirmaram ontem, em Curitiba, as denúncias de que foram submetidos a tortura pelos policiais militares durante a desocupação da Fazenda Santa Maria, em Ortigueira, realizada no dia 29 de abril. Os sem-terra fazem acusações graves contra a polícia (espancamento, tentativa de afogamento, ameaça de estupro e, ainda, de tê-los obrigado a comer esterco). O governo do Estado distribuiu à imprensa uma fita de vídeo com depoimentos de policiais, oficiais da justiça e funcionários da fazenda negando qualquer tipo de violência na desocupação. Os sem-terra pretendem levar o caso à Justiça, apresentando seus depoimentos ao Ministério Público.
Três dos seis sem-terra afirmam ter sofrido tortura: Valdecir Bordignon de 26 anos; Lorival Lesse, 26 e Aristides dos Santos Lisboa, 29. Os outros três, Luiz Custódio de Souza, 28; José Pedro Calixto, 52 e Arlindo de Matos, 33 disseram que não sofreram tortura física, apenas ameaças. As contradições entre os depoimentos dos sem-terra e da polícia começam já no horário de início da desocupação. Segundo Valdecir e Lorival, os policiais da P2 e do GOI de Ponta Grossa chegaram na fazenda acompanhados de dois oficiais de justiça às 9 horas. Estavam fortemente armados e mandaram todos se deitarem no chão. O pessoal ficou deitado das 9 às 14 horas, disse Valdecir. No material distribuído pelo governo, no entanto, o oficial de justiça Gilmar Massalak, que esteve no despejo, diz que a reintegração foi feita sem problemas, de forma rápida. Chegamos ao local por volta das 11 horas e 20 minutos, depois que os sem-terra já tinham concordado em sair.
Segundo os sem terra, os policiais já chegaram na fazenda perguntando pelos nomes que lhes interessavam. Eles pegaram primeiro o Lorival. depois me levaram para um canto, me espancaram, me afogaram duas vezes num tanque de água. Perguntavam o tempo onde estava o carro do movimento e quem eram as lideranças. Como eu disse que não sabia eles me espancaram mais, me afogaram de novo em outro tanque. Depois colocaram um revólver na minha cabeça e apertaram duas vezes, mas não tinha bala. Mandaram eu tirar a roupa e tentaram me estuprar com um pedaço de cana e depois fizeram eu me ajoelhar em frente ao esterco de gado e me fizeram comer meio quilo do esterco, conta Valdecir, lembrando que os policiais ainda reclamaram que estariam perdendo dinheiro já que não tinham conseguido prender os líderes.
Os sem-terra não conseguiram identificar os policias envolvidos nas torturas, que estavam encapuzados e sem crachá com os nomes. O único policial citado por eles é o comandante da operação, tenente Edmauro de Oliveira Assunção. Lorival também diz que pode reconhecer os dois soldados que o ameaçaram de estupro. Na fita distribuída pelo Palácio, o tenente também dá sua versão e desmente o uso de violência.
Para provar as acusações, o coordenador do MST, Roberto Baggio apresenta um laudo do exame de lesões corporais, feito na Delegacia de Ortigueira no dia 30 de abril, pelo médico Jefferson Ricardo Leal, da Polícia Civil. No laudo, o médico afirma que houve tortura e trauma contundente. A Secretaria de Segurança Pública, por outro lado, apresenta parecer do Instituto Médico-Legal (IML) do Paraná, desmentindo a denúncia de agressão. O documento é assinado pelo diretor do IML, Francisco Moraes Silva. Segundo o IML, caso o sem-terra tivesse consumido esterco, ele estaria no hospital e não na cadeia, pois a ingestão teria causado náuseas, dores abdominais, calafrios, picos febris, vômitos persistentes e disenteria, o que não teria ocorrido com nenhum dos seis presos.





