Somando forçasO ato contra o governo federal está sendo organizado há três meses, mas a atual conjuntura, com policiais civis e militares protestando em diversos estados, deu ‘‘gás’’ extra para o protesto. José Rainha Júnior disse acreditar na melhoria da relação do MST com a PM. Ele disse, no entanto, que esse não foi o motivo que levou o MST a apoiar os policiais e que não aceita as críticas de que o movimento teria sido oportunistaLideradas pelo Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entidades contrárias ao governo federal querem reunir pelo menos 70 mil pessoas em 16 estados para criticar o presidente Fernando Henrique Cardoso e a exclusão dos ‘‘sem’’ da sociedade. Serão agricultores sem-terra, moradores sem-teto, policiais sem-salário, trabalhadores sem-emprego e toda uma série de outras categorias agregadas. Caso dê certo, o ato ‘‘Abra o Olho, Brasil’’ deverá ser o maior do gênero na gestão FHC. Estão previstas manifestações em pelo menos 16 capitais. Deve haver bloqueio de estradas em pelo menos seis estados. Curitiba, São Luís e Belo Horizonte não deverão ter transporte público. São Paulo irá sediar o ato principal, entre 16 horas e 18 horas de hoje. São esperadas 15 mil pessoas.
O ato está sendo organizado há três meses. Mas a atual conjuntura, com policiais civis e militares protestando em diversos estados, deu ‘‘gás’’ extra para o protesto.
A Central Única dos Trabalhadores (CUT) foi a responsável pela cooptação de policiais grevistas e em protesto nos estados. Até ontem, policiais do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Cuiabá haviam decidido participar do ato. Em São Paulo, os policiais civis prometem parar, mas a adesão é duvidosa.
O presidente da CUT, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, nega que a central esteja sendo oportunista ao ‘‘engolfar’’ o movimento dos policiais. ‘‘É só uma questão de ser coerente.’’
Vicentinho admite que, em outras ocasiões, polícia e sindicalistas estiveram em lados opostos. ‘‘Mas isso mudou agora’’, diz, sem especificar o que teria mudado. O protesto tem uma agenda que é uma somatória dos discursos da oposição nos últimos três anos: críticas à falta de reforma agrária, desemprego, privatizações, reforma da Previdência, fim da estabilidade, direitos humanos.
Cada categoria fará seu protesto específico: petroleiros vão atrasar a produção por salário e gays manauenses marcharão contra o preconceito, por exemplo.
O palanque em São Paulo será ocupado por políticos partidários e não-partidários, de olho nos votos da platéia no ano que vem. Discursarão Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Vicentinho, e José Rainha Júnior (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
Eles formam a trinca básica do ato de hoje. É uma situação diferente do último grande ato anti-FHC, o ocorrido em Brasília no dia 17 de abril, quando da chegada da marcha nacional dos sem-terra. Naquela ocasião, líderes do MST acusaram a CUT de tentar se apropriar dos ‘‘direitos autorais’’.
Desta vez é diferente. A CUT coordena o ato central em São Paulo e é a referência de logística na maioria dos outros Estados. Só no Paraná há um ‘‘racha’’ entre os sem-terra e os sindicalistas.
Até ontem, o Mato Grosso do Sul prometia ser o Estado com mais gente nas ruas no ato fora São Paulo, com cerca de 12 mil manifestantes em quatro cidades. Inclusive Corumbá, onde 3.500 pessoas protestarão contra o presidente, que estará lá para inaugurar obras do gasoduto Brasil-Bolívia.
Oportunista José Rainha Júnior disse acreditar na melhoria da relação do MST com a PM. ‘‘Se criar uma relação melhor, será muito bom. E acredito que vai criar’’, afirmou. Ele disse, no entanto, que esse não foi o motivo que levou o MST a apoiar os policiais e que não aceita as críticas de que o movimento teria sido oportunista. ‘‘É oportunismo apoiar a luta dos policiais por salários dignos?’’, perguntou.
O líder do MST participou, na segunda-feira, de passeata de policiais civis em São Paulo. Discursou ao lado do deputado estadual Conte Lopes (PPB), capitão de reserva da PM, que diz ter matado mais de 30 pessoas em tiroteios. ‘‘Não sabia quem ele era. Estava lá para apoiar uma causa e não uma pessoa’’, disse Rainha.
De acordo com Rainha, o apoio do MST ao policiais é uma ‘‘boa oportunidade’’ para que os PMs e os sem-terra se conheçam melhor e evitem conflitos no futuro. ‘‘Se o PM é miserável, no momento em que tiver de fazer uma reintegração de posse, vai compreender que nós também somos miseráveis’’, afirmou.

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