Sem-terra protestam contra ministro em silêncio
Por Angela Lacerda
Recife, 08 (AE) - O ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, foi alvo, hoje, no Recife, de um protesto de sem-terra durante solenidade de repasse de 14,5 mil hectares de terras para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Aproximadamente 500 famílias já foram assentadas na área. As terras foram confiscadas de envolvidos na fraude conhecida como o "escândalo da mandioca" - desvio de CR$ 1,5 bilhão do Banco do Brasil em Floresta, no sertão - através de processos judiciais que tramitaram entre 1989 e 1995. Outros 11 mil hectares ainda estão sendo disputados na Justiça. Parte dessas propriedades vinham sendo utilizadas no plantio de maconha.
Com esparadrapo na boca, cerca de 50 sem-terra postaram-se na calçada defronte à sede da Ordem dos Advogados no Brasil (OAB), no centro, onde ocorreu a cerimônia, com faixas acusando o ministro pela falência da reforma agrária e sugerindo sua demissão. O motivo do silêncio, de acordo com o movimento, teria sido uma ameaça de Jungmann de que suspenderia a reunião de amanhã (09), em Brasília, com a direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem- Terra (MST), caso houvesse manifestações dos sem-terra.
Para o movimento, a solenidade, que contou também com a presença da secretária nacional de Administração e do Patrimônio Público, Cláudia Costin, e do procurador-geral da União, Geraldo Brindeiro, era mais "um circo" armado pelo Jungmann. O ministro negou ter feito qualquer ameaça ao movimento. Percurssionista - Questionado sobre a publicidade em torno da cerimônia de hoje, se ela poderia ser considerada uma resposta ao Presidente da República, que pediu aos ministros que fizessem barulho na área social, garantiu que não. "Há dois anos e meio que eu faço barulho", disse. "A mim o presidente não precisa pedir", disse. "E é isso que deixa Stédile (João Pedro Stédile, coordenador do MST) irritado". Para Jungmann, "fez, tem que bater o bumbo".
Bem humorado, ele afirmou que podia ser considerado o percussionista do governo federal. Classificou o MST de "midiático" (que faz tudo para aprecer na mídia) e assegurou que Stédile é melhor percussionista que ele, porque cria muito mais notícias. "Ele ganha porque tem a capacidade de criar conflitos, enquanto eu resolvo problemas", avaliou. "E invasão de prédio do Incra dá mais notícia do que assentar famílias".
Repasse - Cláudia Costin lamentou a demora no repasse das terras, que desde 1995 passaram ao domínio da União, e anunciou mudanças para facilitar a reforma agrária. Com isso, explicou, os 11 mil hectares remanescentes do escândalo - onde outras 500 famílias poderão ser assentadas - passarão direto para o Incra tão logo sejam liberados pela Justiça.
Ela também assinou um protocolo de intenções com o instituto, que passa a ser responsável pela regularização e avaliação de 2,2 milhões de hectares da União não estão demarcados e que poderão ser usados para a reforma agrária. Essas terras estão distribuídas em dez Estados - Amazonas, Amapá, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Sergipe.





