Sem-terra permanecerão nas proximidades de Porto Seguro
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de abril de 2000
Por Roldão Arruda 
Porto Seguro, 17 (AE) - Os três mil sem-terra que marcharam hoje pelas ruas da histórica cidade de Porto Seguro, no litoral sul da Bahia, vão permanecer na região. À noite, após a realização de um ato de protesto contra a violência no campo, realizado diante do forum, eles retornaram a Eunápolis, que fica a quase 60 quilômetros de distância.
Ficarão instalados num acampamento às margens da BR-101, à espera de um encontro com o ministro Raul Jungman. No dia 22 poderão deslocar-se até Cabrália para participar das manifestações de protesto que estão sendo preparadas por oganizações sindicais, indígenas e movimentos sociais, sob o nome de Outros 500.
A decisão de sair do centro de Porto Seguro foi tomada após uma negociação de mais de quatro horas entre representantes do governo do Estado e dos sem-terra. Dela também participaram, por telefone, o governador César Borges e o senador Antonio Carlos Magalhães.
O principal objetivo dos trabalhadores rurais era obter uma audiência com o ministro Jungmann, na região do descobrimento do Brasil, para debater a reforma agrária na Bahia. Como não foram atendidos, prometiam acampar na área de Porto Seguro ou então deslocar-se até Salvador, para juntar-se ao grupo que hoje ocupou a sede do Incra naquela capital.
Ao final do encontro, ficou acertado que os sem-terra iriam deslocar-se até Eunápolis, onde aguardarão o ministro até o dia 21.
"Ainda não decidimos o que vamos fazer depois disso", disse Valmir Assunção, um dos principais líderes do MST no Estado. "Existe a possibilidade de participarmos dos atos de protesto, mas a decisão não foi tomada."
Durante o ato de protesto diante do forum, os sem-terra exibiram 19 caixões funerários, para lembrar os mortos de Eldorado de Carajás. Tudo foi acompanhado por um extraordinário aparato policial, que mobilizou até um helicóptero da Polícia Rodoviária Federal. Entre a população da cidade e os turistas, porém, a manifestação não despertou interesse. No desfile pela cidade, não houve manifestações de apoio ou de repúdio.
Os índios não participaram do ato de protesto. Até a noite de hoje, as informações sobre a sua ausência eram desencontradas. Alguns líderes afirmavam que tudo se devia à Polícia Militar, que havia desviado o comboio de ônibus no qual viajavam 1500 representantes indígenas, evitando sua entrada em Porto Seguro. Mas também havia a versão de que os próprios índios haviam desistido, com receio da repressão policial. Os ônibus já haviam sido parados diversas vezes em barreiras policiais.
Conferência - Começará amanhã em Coroa Vermelha a Conferência dos Povos Indígenas, que reune 1500 representantes de diversos grupos espalhados pelo País. Até hoje, a maior parte do grupo encontrava-se acampada ao pé do Monte Pascoal.
O presidente da Funai, Carlos Marés, que participará da conferência, esteve no local para cumprimentar e conversar com os índios. No final da manhã, eles realizaram diversas cerimônias para celebrar o encontro. Um grupo também realizou uma caminhada simbólica até o topo do monte - o primeiro sinal da terra brasileira avistada pela esquadra do almirante Pedro álvares Cabral, há 500 anos.


