Sem-terra param Porto Feliz em protesto contra prisões
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domingo, 30 de maio de 1999
Por José Maria Tomazela 
Porto Feliz, 31 (AE) - Cerca de 500 sem-terra do acampamento "Nova Canudos" pararam hoje a cidade de Porto Feliz, a 120 quilômetros de São Paulo, exigindo a libertação de militantes presos há cinco dias na Cadeia Pública da cidade. Os manifestantes, ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), fizeram uma marcha de 13 quilômetros para ocupar a frente do prédio do Fórum, gritando palavras de ordem contra a juíza criminal Daniela Bortoliero Ventrice.
A juíza manteve a ordem de prisão de sete sem-terra acusados de participação nos saques de três caminhões de alimentos, na noite de quinta-feira, na Rodovia Castello Branco. Outros treze acusados que também haviam sido presos foram libertados.
Foi a quarta ação envolvendo os acampados nos últimos cinco dias. Além dos bloqueios da rodovia e dos saques, eles tiveram o acampamento ocupado pela Polícia Militar na sexta-feira e, no domingo, tomaram como refém o sargento Elias Carneiro, do serviço reservado da Polícia Rodoviária.
Policiais - Os sem-terra chegaram à cidade, de 45 mil habitantes, em caravana, por volta do meio-dia. Eram 300, segundo a polícia militar. Os comerciantes e algumas agências bancárias fecharam as portas temendo saques e muitos curiosos saíram à rua. Os manifestantes foram até a Cadeia Pública, ao lado da Delegacia de Polícia, mas esbarraram em um forte esquema de proteção armado pela Polícia Militar. Então seguiram para o Fórum.
Cerca de 50 policiais da Tropa de Choque chegaram a tempo de impedir que o prédio fosse ocupado. As portas foram fechadas e a área isolada por outros 40 policiais. O coordenador do MST, Gilmar Mauro, disse que a juíza está perseguindo o movimento. "Ela nos despejou, mandou me prender, mandou a polícia invadir o acampamento e agora quer manter nossos companheiros presos." Usando o carro de som, os sem-terra ofendiam a juíza, chamando-na de "bandida", "fora da lei" e "safada".
Mauro ocupou o microfone para dirigir-se aos policiais que formaram um cordão à frente do Fórum. "Nossa vontade é ir pra cima de vocês, ir lá para dentro e dizer umas verdades para aquela juíza. Se não pudermos, vamos acampar aqui e só sair quando os companheiros forem libertados." Os militantes discursavam, cantavam, faziam barulho batendo em panelas e recitavam poesias. Um grupo de 18 crianças levou porções de terra para depositar nos pés dos policiais. O menino Ricardo Rodrigues da Cruz, de 6 anos, repetiu uma frase ditada por um militante. "Não queremos guerra, queremos terra." O sem-terra Isaac Arco Íris Caldas, alheio ao barulho, lia "O Primo Basílio", de Eça de Queiróz.
Funcionários do Fórum informaram que a juíza Daniela Ventrice não estava no local quando a manifestação começou. Ela teria passado o dia no Tribunal de Justiça de São Paulo. Ela já pediu transferência para outra Comarca por estar sendo ameaçada de morte por traficantes de drogas. Nas últimas semanas, tem ido ao Fórum com escolta.
Parte dos manifestantes voltou à Cadeia na tentativa de levar flores aos presos, mas as barreiras formadas pelos policiais impediram a aproximação. Os sem-terra estão junto com outros 74 presos. O barulho dos manifestantes causou agitação dentro da cadeia, com um princípio de rebelião, controlada pelos carcereiros.
Convocação - De acordo com Gilmar Mauro, o MST está convocando manifestações em todo País, amanhã (01), contra as prisões de Porto Feliz e do Paraná. Nesse Estado, onde há 41 sem-terra presos, segundo Mauro, militantes marcham em direção ao Palácio do Governo. "Vamos fazer o mesmo em São Paulo caso os companheiros não sejam libertados até sexta-feira", afirmou.
O delegado do município, José Eduardo Martins, disse que apenas o Tribunal de Alçada Criminal do Estado poderia determinar a libertação dos presos. Ele defendeu a juíza. "Os sete que ficaram aqui não preenchem os requisitos legais para serem libertados." Martins descartou a hipótese de transferir os presos para outra cidade, alegando que a cadeia estava bem protegida.
Segundo ele, o professor universitário Marcelo Buzetto é primário, mas foi reconhecido como um dos saqueadores da carga de macarrão. Os outros - Claudionor Rodrigues de Andrade, Manoel Francisco de Andrade, Celso Barbosa Rocha, José Antonio de Santana, Milton José do Prado e Paulo Sérgio Almeida - têm antecedentes criminais. Segundo Gilmar Mauro, o MST entraria hoje com pedido de habeas-corpus em favor deles no TJ.
Sobre o policial feito refém, domingo, ele disse que o sargento estava em atitude suspeita ao lado da cerca do acampamento e foi levado para dentro para dizer o que pretendia ali. Mauro negou que um dos militantes estivesse armado de revólver, como acusou o policial, ressalvando que todos tinham foice e facão. O policial estava à paisana e só se identificou depois, segundo Mauro. O coordenador do acampamento, João Paulo Rodrigues, disse que o sargento quase foi linchado. "Foi difícil segurar os companheiros quando souberam que era um policial infiltrado." O capitão Edmundo Nascimento, do Serviço de Comunicação Social da PM, disse que está sendo aberto procedimento administrativo para investigar o caso. A Secretaria de Justiça do Estado não se manifestou sobre o cerco ao Fórum de Porto Feliz, delegando a questão ao Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp). A coordenadora Tânia Andrade participava de um evento na Secretaria e não foi encontrada.


