Cerca de mil trabalhadores sem-terra ocuparam ontem o parque industrial da Destilaria Liberdade, uma das maiores de Pernambuco, no município de Escada, na Zona da Mata. A ação, inédita no Estado, inaugura, segundo o principal líder do MST-PE, Jaime Amorim, uma nova forma de luta pela reforma agrária.
De acordo com ele, a partir de agora as ocupações não mais serão restritas a propriedades improdutivas, até porque o Incra parou de fazer vistorias em qualquer área, ocupada ou não, improdutiva ou não. ‘‘Queremos denunciar a falência da zona canavieira e mostrar que as terras têm que cumprir sua função social de produzir alimento e emprego’’, afirmou ele.
Os sem-terra se concentraram em rodovias do município e chegaram à sede da destilaria às 9h15 distribuídos em 20 ônibus - pelo menos metade deles cedidos por prefeituras da Zona da Mata e do sertão -, dois caminhões, um carro de som e carros particulares. Muitos também foram a pé. A primeira providência deles foi colocar a bandeira do movimento no alto da maquinaria da empresa.
Ao saber, pelo vigilante da destilaria, da existência de 8 milhões de litros de álcool estocados no pátio interno, Amorim orientou os sem-terra a acampar defronte à recepção. ‘‘Que bom seria fazer um estouro com esse álcool, que emoção seria explodir, junto com isso aqui, 500 anos de escravidão e miséria’’, afirmou. ‘‘Mas hoje não vamos explodir nem queremos que haja nenhum acidente.’’
Os sem-terra levaram um caminhão carregado com alimentos e fogões industriais. Na área da destilaria eles colheram cana, macaxeira e banana e tiraram bambus e troncos de imbaúba para armar suas barracas. O arrendatário da Destilaria Liberdade, Manuel Costa, não entendeu a ocupação. ‘‘Isso é uma fábrica, eles estão no lugar errado’’, disse.
Manuel Costa afirmou que iria chamar a polícia para garantir a segurança dos 140 funcionários e do patrimônio, mas não pretendia fazer nada contra os sem-terra. Segundo ele, a destilaria - arrendada há quatro anos - tem capacidade de produzir 40 milhões de toneladas de álcool, mas nessa safra produziu 30 milhões de toneladas.
Acrescentou que a empresa compra cana de terceiros e não tem nenhuma dívida trabalhista. A destilaria parou de moer cana no dia 10 e se encontra em fase de entressafra.
O superintendente regional do Incra, Roosevelt Gonçalves, disse que a invasão de uma área produtiva viola o direito de propriedade privada e caracteriza a ação do MST como política. ‘‘O radicalismo do MST está aumentando e é muito perigoso’’, observou.
Ele informou que o governo federal está preparando uma medida que só vai permitir vistorias em áreas que estejam desocupadas há um ano. Segundo Gonçalves, existem hoje em Pernambuco 176 áreas ocupadas pelos vários movimentos de luta pela terra - MST, Fetape, MT, CPT. E reiterou que o órgão não tem cronograma nem recursos para realizar vistorias nesses locais.
O presidente da Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe), Vavá Rufino (PSB), não acredita que nenhum prefeito tenha cedido transporte para invadir propriedade. Havia ônibus com identificação das prefeituras de Pombos, Gameleira, São José da Coroa Grande, Catende, Ribeirão Aliança, Santa Maria da Boa Vista e Lagoa Grande. Ele afirmou que vai apurar o fato e orientar os prefeitos a só cederem transporte sabendo para o que eles serão usados.
O diretor do MST-PE responsável pelos assentamentos, Edílson Barbosa, confirmou que quase todos os ônibus foram conseguidos com prefeituras às quais solicitaram transporte ‘‘para mobilização’’.
A expectativa do MST é que mais sem-terra engrossem o acampamento da destilaria durante a semana. Ontem, uma parte se manteve no local e outra seguiu, em marcha, para o Recife para participar de um ‘‘Ato em Defesa do Brasil’’, no dia 20, ao lado de partidos políticos de oposição, sindicatos, igreja e outros movimentos sociais.

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