Dois lavradores sem-terra acampados na Fazenda Pinhal Ralo, em Rio Bonito do Iguaçu (125 km a leste de Cascavel/PR) foram mortos a tiros ontem quando, em grupo, examinavam uma lavoura de milho a 3 km do acampamento. Segundo informações do local, o ataque foi numa emboscada. O tenente PM Adilson Luiz Correia dos Santos, que seguiu para uma vistoria no local, disse ter encontrado projéteis de calibre 22, 12 e 357, e até de um fuzil 762, arma de uso exclusivo da Polícia Militar e do Exército.
As vítimas fatais são José Alves dos Santos, 34 anos, e Vanderlei das Neves, 16. Outro sem-terra, José Ferreira da Silva, 38 anos, foi ferido com um tiro de raspão na cabeça. Os demais, cerca de dez, conseguiram escapar ilesos, embrenhando-se no mato, segundo eles. Os corpos de José e Vanderlei permaneceram no local do crime durante a tarde, para perícia policial, e depois foram levados para o IML de Guarapuava.
Segundo o padre Afonso Maria das Chagas, que acompanha o acampamento desde a invasão em 1996 e que esteve no local ontem, os sem-terra que conseguiram escapar contam que os tiros ‘‘vieram de repente’’, pegando o grupo totalmente desprevenido. ‘‘Um dos projéteis disparados contra o menor foi à queima-roupa, pois há marcas de pólvora em seu corpo’’, relata. Ele observa que os lavradores não estavam armados e não tiveram chance de se defender.
Os sem-terra dizem ter visto três dos atiradores saírem do mato, um sem camisa e dois com jaquetas azuis e botas, uniforme utilizado, segundo eles, pelos seguranças da fazenda da empresa Giacomet-Marodin. A PM fez um arrastão tão logo chegou ao local, mas não encontrou suspeitos.
A Fazenda Pinhal Ralo foi invadida em 17 de abril de 1996, e logo em seguida os proprietários se dispuseram a vender parte da área para o Incra São cerca de 1.800 famílias acampadas. O risco de derramamento de sangue na área foi previsto no final do ano pela superintendente do Incra no Paraná, Maria de Oliveira. Logo após ter visitado o acampamento, ela pediu ‘‘solução imediata’’ para a situação, que está ‘‘intranquilizando’’ os sem-terra.
Segundo o tenente PM Santos, o clima no acampamento no final da tarde de ontem ‘‘não chegava a ser tenso’’ entre os lavradores.

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