Sem-terra matam e mutilam corpo de administrador no MS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de julho de 2000
Agência Estado De Campo Grande 
Um grupo de 25 a 30 sem-terra ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Mato Grosso do Sul (Fetagri) matou anteontem o administrador da fazenda Rancho Loma, Luiz Correa da Silva, de 57 anos, no município de Iguatemi, a 481 quilômetros de Campo Grande. O assassinato foi perto da fazenda Renascer, que seria vistoriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), quando Silva conduzia, com outros peões, uma boiada para o local.
De acordo com peritos do Instituto Médico-Legal, foram usadas ferramentas agrícolas - foices e machados - e houve mutilações de membros do administrador. O enterro aconteceu ontem. Faixas pediam justiça e cartazes protestavam contra a violência no campo.
O problema começou na quarta-feira, por volta das 9 horas, na frente a Fazenda Ouro Fino, a um quilômetro da Fazenda Renascer, que está sendo disputada. Nenhum fazendeiro tem o título definitivo dos quase 2.900 hectares de área. O último posseiro, Antonio Vicentino, vendeu as benfeitorias do imóvel para Ademar Figueiró, que luta pela posse da terras.
Os sem-terra, sabendo da situação jurídica da propriedade rural, acamparam em dezembro do ano passado no corredor da Renascer, um beco com cercas laterais e 15 metros de largura que termina no pasto da fazenda. É por esse local que se conduz o gado até a pastagem.
Ontem o Incra havia marcado uma vistoria na fazenda Renascer. Por volta de 9 horas, começaria o trabalho para verificar se a terra é produtiva ou não. Entretanto, o pecuarista Ademar Figueiró juntou um grupo de funcionários, retirou 2.500 cabeças de boi da Fazenda Rancho Loma, de sua propriedade, e levou para a Renascer.
A um quilômetro da fazenda Renascer e na frente da Fazenda Ouro Fino, o grupo de 25 ou 30 sem-terra armados com foices, machados, enxadas e outras ferramentas agrícolas, barrou a boiada, ameaçando quem tentasse prosseguir. Luiz Correa da Silva era o líder dos peões que tocavam a boiada. Ele estava na frente aguardando ordens do patrão, Ademar Figueiró.
O agrônomo Hugo Fernando Milan, assessor de política agrária da Fetagri-MS, que acompanhava os técnicos do Incra responsáveis pela vistoria, propôs ir até o centro de Iguatemi, fechar um acordo com o delegado regional de Polícia Civil e com a juíza da comarca.
A intenção era deixar o pecuarista entrar com o gado na Renascer, sem prejudicar as lavouras de subsistência formada pelos sem-terra dentro da fazenda. Quando Hugo voltou, uma hora e meia mais tarde, junto com o juiz e a delegada, a morte já havia acontecido. Dois peões que estavam ao lado da vítima conseguiram fazer alguns retratos falados dos agressores.
O presidente da Fetagri-MS, Geraldo Teixeira de Almeida, disse que nada justifica um assassinato. Ele lamentou o ocorrido, apontando precipitação por parte do pecuarista que deu ordens para tocar o gado para o corredor da Renascer. Meu Deus do céu, o gado mataria todo o povo do acampamento naquele corredor espremido, disse.


