Gerson da Luz Souza
De Cascavel
Especial para a Folha
Aproximadamente 2.500 sem-terra, segundo estimativa da Polícia Militar, deslocaram-se ontem do assentamento onde estão instalados desde maio deste ano – o número total de acampados chega a mais de três mil pessoas –, em uma área do Imóvel Rio Iguaçu, em Quedas do Iguaçu, até a sede industrial de madeira da empresa Araupel, à qual pertencem as terras. Os sem-terra permaneceram no local das 14h30 às 16h30, o que levou a empresa a suspender as atividades por esse período. Depois o grupo voltou ao acampamento. Não houve confrontos.
O sargento Francisco Carlos Sanches, da Polícia Militar, informou que a princípio dirigentes da empresa determinaram a formação de um bloqueio com 40 seguranças para impedir a movimentação dos sem-terra rumo à sede industrial. Mas por orientação do comandante da Companhia Militar, tenente Luis Fernando de Barros, os seguranças abriram caminho. Se o bloqueio fosse mantido, o confronto seria inevitável.
A movimentação dos sem-terra já havia começado pela manhã. Eles se dividiram em dois grupos, sendo que um se dirigiu até a cidade, para segundo a PM, invadir a prefeitura e a associação comercial. ‘‘Todo o comércio foi fechado antes que eles chegassem à cidade. De lá o grupo juntou-se ao outro, na sede industrial da fazenda’’, relatou o sargento Sanches.
O gerente de Recursos Humanos da Araupel, Roni Cesar Chiochetta, disse que os sem-terra ‘‘ameaçaram os funcionários da indústria’’ e que muitos deles ‘‘empunhavam facões, foices e até armas de fogo’’. A indústria produz manufaturados de madeira e opera 24 horas por dia, empregando 600 pessoas. A produção diária chega a 180 metros cúbicos de madeira, e segundo Chiochetta, a paralisação representou prejuízo ‘‘de um contêiner, que deixou de ser exportado’’. O prejuízo, disse, foi também do Brasil, que perdeu divisas.
O Imóvel Rio Iguaçu tem 5 mil hectares, dos quais, segundo a Araupel, 1,8 mil são de terras mecanizadas e o restante de matas nativas de preservação e reflorestamento. A Araupel é dona de um total de 53 mil hectares na região, em imóveis contíguos. Outra de suas antigas propriedades, a Fazenda Pinhal Ralo, de 27 mil hectares, no município de Rio Bonito, foi invadida em abril de 96 por três mil famílias, na maior ação do gênero já registrada no País. Depois, a empresa aceitou negociação com o Incra, para desapropriação, que resultou no assentamento de mil famílias que permaneceram no local.
A Folha em Cascavel não conseguiu conversar com representantes dos sem-terra, para obter versão do movimento.

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