Sem-terra impedem vacinação de gado
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terça-feira, 18 de maio de 1999
Maurício Borges 
O Núcleo Regional da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), em Ivaiporã (140 km ao sul de Apucarana), está encontrando dificuldades para vacinar o gado das fazendas Corumbataí e Canadá - ocupadas por sem-terra desde abril de 1997 -, contra a febre aftosa. O prazo limite para vacinação encerra-se amanhã. Técnicos da Defesa Sanitária Animal (DSA) não conseguiram fechar um acordo entre o proprietário e o MST.
A fazenda, mais conhecida como 7 Mil, de 5.731 alqueires, tem em suas pastagens, segundo estimativas do proprietário, Flávio Pinho de Almeida, cerca de oito mil cabeças de gado.
Numa reunião prevista para hoje, em Ivaiporã, a Seab planejava resolver a questão entre as partes envolvidas, mas ontem líderes do acampamento anunciaram que não participariam do encontro. De acordo com informação dada pelo proprietário, os sem-terra querem que as vacinas sejam entregues a eles e até estabeleceram para hoje o prazo limite. Se isso não for cumprido, os sem-terra ameaçam soltar o gado nas rodovias da região, denunciou ele.
De acordo com Pinho de Almeida, o impedimento da vacinação obrigatória contra a febre aftosa, compromete a obtenção do atestado de sorologia negativa junto à Organização Internacional de Epizootias, anunciado pelo Ministério da Agricultura para o mês de julho. Ele acrescenta que isso vedará o acesso dos pecuaristas paranaenses aos demais mercados consumidores e à exportação.
O industrial paulista, que espera desde junho de 97 que o governador do Estado cumpra o mandado de reintegração de posse, anunciou ontem que já solicitou providências urgentes ao secretário de Segurança Pública e ao Procurador-geral do Estado.
Segundo ele, a ameaça dos sem-terra também foi comunicada ao Tribunal de Justiça do Paraná, onde tramita o pedido de intervenção federal no governo do Estado, por descumprimento de ordens judiciais.
Ainda ontem, a veterinária Maria Andreola, da DSA de Ivaiporã, confirmou à Folha que a vacinação do gado da 7 Mil está sendo dificultada pela radicalização das duas partes envolvidas na questão. A reunião que deveria ser realizada nesta quarta-feira foi mesmo cancelada, mas nós continuamos dialogando com os sem-terra, revelou ela.
A veterinária preferiu não entrar em detalhes sobre o desentendimento entre o proprietário e os sem-terra, mas tudo indica que o obstáculo maior é que a vacinação poderia determinar o número exato de animais existentes na fazenda. Vários inquéritos policiais instaurados nos últimos meses, nas delegacias de Ivaiporã e Jardim Alegre, apuram venda de animais para frigoríficos, e até abate para consumo e venda em casas de carnes.
A Folha não conseguiu ouvir ontem o advogado Elso Bittencourt, que representa os sem-terra do acampamento da 7 Mil.


