A polícia já sabe que o agricultor Antônio Tavares Pereira, 38 anos, foi baleado na BR-277. O autor do disparo teria sido um policial militar após uma escolta frustrada de sem-terra de volta a Ponta Grossa. O secretário da Segurança Pública, José Tavares, sustentava que a BR-116 era a rodovia onde Pereira foi atingido e que ele não tinha ligações com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na terça-feira, a 277 foi palco de dois violentos confrontos entre sem-terra e a Polícia Militar, que impediu os agricultores de se aproximar de Curitiba. Ontem, o Instituto de Criminalística informou não ter condições de identificar a arma usada no disparo. A cápsula da bala teria sido perdida após o tiro que atingiu Pereira.
O delegado Fauze Salmen revelou que a ficha hospitalar do agricultor morto – documento em que José Tavares se baseou – foi preenchida com informações erradas. ‘‘Em nenhum momento a verdade deixará de ser perseguida. Todo o aparato policial está envolvido para esclarecer esta morte e levar ao público a verdade dos fatos’’, respondeu o secretário ao saber da revelação. Em depoimento ao delegado, a auxiliar administrativa do Hospital do Trabalhador, Augusta Silveira Furtado, disse que ‘‘deduziu a rodovia onde Pereira foi baleado’’. O sem-terra Aparecido Alves de Souza, que socorreu o agricultor, teria comunicado a auxiliar que o disparo aconteceu na ‘‘BR’’, sem detalhar o número de registro da estrada.
‘‘Como 80% dos pacientes atendidos com ferimentos violentos são oriundos da BR-116, a atendente colocou o nome da rodovia por iniciativa própria’’, explicou Salmen. Os sem-terra Laureci Coradassi Leal e Sérgio Adelmo Turco prestaram depoimento ontem à tarde na Delegacia de Homicídios. Eles voltaram a acusar a Polícia Militar de ter disparado o tiro que matou Pereira. Pelo menos uma dúvida foi esclarecida na investigação. De acordo com o delegado Fauze Salmen, Pereira foi ferido por volta das 8h15 de terça-feira e não no confronto das 9h45 entre sem-terra e a Tropa de Choque da PM. O agricultor ocupava um dos ônibus escoltados por policiais militares e rodoviários, que acompanhavam de volta para Ponta Grossa, um grupo de sem-terra impedido de se aproximar de Curitiba.
A confusão em que Pereira foi ferido começou quando os sem-terra decidiram parar no acostamento da 277, na altura do km 110. Eles tentaram se unir a outros ônibus de agricultores que estavam na pista oposta. O delegado não descartou a hipótese de um policial ter dado um tiro de advertência para baixo ao perceber que os sem-terra não continuariam a viagem. A bala teria ricocheteado no asfalto e atingido Pereira no abdômen.
O delegado pediu ajuda ao MST para encontrar Aparecido Alves de Souza, apontado como uma importante testemunha para esclarecer a morte de Pereira. Souza está desaparecido e pode ter ficado com restos da bala. Salmen quer identificar o motorista de um Chevette que conduziu Pereira ao hospital. O chefe da Seção de Balística Forense, Paulo Stephan, que trabalha no Instituto de Criminalística, garantiu que os exames preliminares feitos na bala extraída do corpo de Pereira impedem a identificação da arma usada no confronto. Segundo ele, a blindagem (cápsula) do projétil, que foi perdida, era necessária para identificar a arma em que a bala estava.
O advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Darcy Frigo, diz que a PM não usou apenas armas municiadas com balas de borracha, mas revólveres calibre 38 com munição real. Frigo se baseia em imagens feitas pela TV Iguaçu, que mostram os PMs com as armas.

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