Sem-terra fica ferido em desocupação
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de maio de 1999
Lucinéia Parra 
A Polícia Militar desocupou, na madrugada de ontem, mais duas fazendas nos municípios de Querência do Norte e Santa Cruz do Monte Castelo. Conforme o Comando da PM de Paranavaí, 450 policiais dos 19 destacamentos do interior do Estado participaram da operação. O sem-terra Antônio Carlos Canassa foi ferido na parte superior da perna esquerda. Ele foi atendido no hospital Casa de Saúde e Maternidade Santa Catarina, localizado em Loanda. O MST afirma que outros dois trabalhadores ficaram feridos na operação.
As fazendas desocupadas foram: São Francisco III, localizada em Querência do Norte, e Santa Maria Agropecuária, em Santa Cruz do Monte Castelo. Na São Francisco III, conforme o comandante do 8º BPM de Paranavaí, Alberto Augusto da Silva, os policiais retiraram 29 pessoas, todos homens. Já da fazenda Santa Maria Agropecuária, segundo Silva, foram retiradas 39 pessoas, sendo apenas três mulheres. A desocupação segundo ele, começou por volta das 5 horas e não houve confrontos. A Fazenda São Francisco III, com 80 alqueires, pertence a Gilmar José Izzo e foi invadida em 25 de abril de 1996. Já a Fazenda Santa Maria Agropecuária, tem 277 alqueires e estava invadida desde fevereiro deste ano. A área pertence ao Grupo Bradesco.
O único problema foi com um sem-terra que tentou fugir e foi atingido na perna, mas teve ferimentos leves, disse o comandante. A Folha apurou que o sem-terra Antonio Carlos Canassa foi atingido por uma bomba de efeito moral jogada pelos policiais durante a desocupação. Ele estava na porteira quando a PM chegou atirando bombas de gás. Houve muita violência, eles bateram em todos que encontraram. Meu marido foi levado para o hospital Santa Catarina em Loanda e disse que estava bem, mas depois não deu mais notícias, afirmou à Folha a mulher de Antônio Carlos, Laíde Canassa, 40 anos.
Segundo ela, que mora em Santa Esmeralda, a oito quilômetros da fazenda, a desocupação começou às 3 horas de ontem. Vi quando um camburão da PM passou por aqui em direção a Loanda. De lá, meu marido ligou às quatro, dizendo que estava fazendo curativos. Depois disso, ninguém teve mais notícias dele, lamentou Laíde. Conforme comerciantes de Monte Castelo, os sem-terra teriam reagido à desocupação e os policiais teriam jogado a bomba no acampamento. Canassa foi atendindo no hospital, em Loanda, onde foi feito um curativo e ministrado antibiótico. Segundo funcionários do hospital, o ferimento teria sido de apenas dois centímetros.
A PM também deteve sete sem-terra que teriam resistido à desocupação. Nos dois acampamentos, a PM apreendeu cinco espingardas e seis facas. De acordo com o comandante Silva, desde o início da operação de desocupação das áreas invadidas na região de Querência do Norte, no dia 6 deste mês, cerca de 70 policiais militares se revezam na vigilância das seis fazendas desocupadas na primeira etapa da operação. Com os despejos de ontem, aumenta para oito o número de fazendas que os policiais terão que vigiar 24 horas por dia. Conforme Silva, mais dois grupos de policiais farão a seguranças das duas novas áreas desocupadas.
O coordenador do MST em Curitiba, João Ubiraci Lopes, lembrou que as duas fazendas desocupadas ontem foram consideradas improdutivas pelo Incra, temos os laudos provando isto.
Até o início da noite de ontem, o MST tinha informações de que estavam presos Antônio Carlos Canassa, Edvaldo Troes e Gílson Rodrigues dos Santos. Não sabemos os nomes dos outros quatro. Entre os feridos sabemos que um menor e um idoso foram atingidos pelas bombas. Além de Canassa, também ficou ferido o sem-terra, José Santelo. O outro não temos o nome, disse. (Colaborou Marccio W. Varella)


