Curitiba, 31 (AE) - Cerca de 500 pessoas interditaram, hoje pela manhã, por mais de uma hora, a BR-277, em Medianeira, no oeste do Paraná. Elas protestavam contra a violência no campo e a morte de Eduardo Anghinoni, irmão do líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no noroeste do Paraná, Celso Anghinoni, sepultado antes da manifestação. Ele foi morto na noite de segunda-feira, atingido por tiros, quando assistia televisão na casa do irmão, no Assentamento Pontal do Tigre, em Querência do Norte.
Segundo a Polícia Rodoviária Federal, a manifestação foi pacífica, mas provocou congestionamento de cerca de um quilômetro e meio em cada uma das pistas. Eduardo Anghinoni morava em Medianeira com a mulher e um filho de cinco anos. Um dos coordenadores do MST, em Curitiba, Dirceu Boufler, disse hoje que o clima é de "insegurança". "Há ameaças contra os líderes", denunciou. "Preocupa-nos o silêncio do governo".
O secretário de Segurança Pública do Paraná, Cândido Martins de Oliveira, determinou que o delegado de Paranavaí, Luiz Norberto Canhoto, presida o inquérito que vai apurar a autoria do crime. Segundo o delegado, "qualquer informação, desde que idônea, será bem recebida". Ontem, lideranças do MST afirmaram que tinham pistas sobre o criminoso e que fariam uma investigação paralela.
O delegado Canhoto disse que recolheu projéteis de duas armas diferentes nas proximidades da casa de Anghinoni. A Polícia Técnica tinha identificado alguns de calibre 38. Os outros estão sendo examinados, mas demonstram ser de pistola 9 milimetros. Segundo o delegado, os tiros foram dados de uma distância aproximada de quatro metros. Somente na próxima semana ele vai ouvir os familiares de Eduardo Anghinoni.
O assessor de Imprensa da União Democrática Ruralista (UDR) do noroeste do Paraná, Benedito Praxedes, disse hoje que a entidade não iria fazer nenhum pronunciamento, pois não havia sido acusada formalmente. "Se a UDR for acusada, vamos exigir as provas e, se elas não aparecerem, vamos processar quem acusou", afirmou. "Não vamos ficar batendo boca com o MST". A UDR vem cobrando do governo estadual força policial para cumprir as mais de 40 ordens de reintegrações de posse expedidas pela Justiça. Desocupação - O coordenador do MST, Dirceu Boufler, disse hoje que a desocupação de seis fazendas, acertada na semana passada com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o governo do Estado, será efetivada. Duas já foram liberadas. As outras quatro devem ser desocupadas até o dia 15. O MST também decidiu que vai denunciar no Ministério da Justiça, em Brasília, que vários trabalhadores rurais foram mortos no Paraná - somente na década de 90 foram 26 mortes. "Não há uma pessoa presa", reclamou Boufler.
O superintendente-adjunto do Incra no Paraná, Evaldo Bueno, disse que a morte de Eduardo Anghinoni não interfere na atividade do órgão. "O Incra não tem nada a ver com isso", afirmou. "Não vai ferir o acordo do Incra com ninguém".

mockup