Sem-terra fazem reféns em manifestação
Sandra Mara Mendes
Especial para a Folha
Trabalhadores rurais sem-terra ocuparam as imediações do Fórum de Quedas do Iguaçu, armados de foices e facões, na manhã de ontem e fizeram reféns cerca de 20 funcionários, juiz e promotor. Uma bandeira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi hasteada ao lado da do Paraná. Aproximadamente mil manifestantes reivindicavam a libertação de nove sem-terra, presos em flagrante, no dia 7 deste mês, por furto de erva-mate numa área da empresa Araupel.
Os manifestantes desocuparam o local por volta das 16h30, após uma reunião entre Polícia Militar, Ministério Público, o juiz Mauro Modin e 12 representantes do MST. O promotor Cláudio César Cortesia disse que não houve negociação com a coordenação do movimento. Deixamos claro que não poderíamos efetuar nenhuma transação com a soltura dos presos, pois o Judiciário não procede desta forma, salientou.
Segundo Cláudio César, o único acordo firmado é que o Ministério Público analisará até a próxima terça-feira os dois pedidos de liberdade provisória dos nove indiciados. Ele frisou que não houve violência dos manifestantes, exceto o fato de cercear o direito de ir e vir das pessoas que estavam no Fórum. Tudo transcorreu bem e o bom senso predominou nas negociações, disse Cláudio.
O coordenador estadual do MST, Roberto Baggio, disse que a manifestação dos sem-terra é legítima por criticar a Polícia Militar do Paraná que está se posicionando favoravelmente aos latifundiários.
Baggio salienta que diariamente líderes e integrantes do movimento são presos e centenas de pedidos de prisão são expedidos sem nenhum fundamento jurídico.
O impasse iniciou na última segunda-feira, quando nove trabalhadores foram presos em flagrante por furto de erva-mate, em área da empresa Araupel. A PM apreendeu dois caminhões com cargas furtadas.
Os sem-terra Maurílio Silvério Borges, Dico José Mendes, Joel Martins de Oliveira, João Alberi da Costa, Ireno Carvalho, Jair Taborda, Francisco Dalmazio Henges, Francisco Ribeiro de Camargo e Rui Jesus de Camargo foram enquadrados em furto qualificado, estelionato e formação de quadrilha.
Segundo o delegado Ítalo Biancardi Neto, as cargas de erva-mate em folha foram avaliadas em R$ 2.200,00. Os acusados disseram que vendiam o produto a R$ 0,80 centavos a arroba. As cargas apreendidas seriam entregues numa ervateira de Laranjeiras do Sul. A polícia constatou que cinco cargas haviam sido vendidas anteriormente a outra ervateira. Os acusados usavam notas fiscais do produtor, autenticadas pela prefeitura de Quedas do Iguaçu, para burlar a fiscalização.
Segundo o delegado, os sem-terra disseram que há 60 dias estavam retirando erva-mate da Araupel. A Polícia Civil pediu a prisão preventiva de mais quatro pessoas e as ervateiras serão indiciadas por receptação. Roberto Baggio disse que é legal a retirada de erva-mate por ser uma planta nativa e essencial para a sobrevivência das famílias dos acampamentos.





