Cerca de cinco mil trabalhadores rurais ligados ao Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) iniciaram na manhã de ontem, em Feira de Santana, a 108 quilômetros da capital baiana, a marcha contra o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, que deixou 19 sem-terra mortos. Os sem-terra estão seguindo pela BR-324, a mais movimentada da Bahia, e devem chegar a Salvador no domingo.
Três viaturas da Polícia Rodoviária Federal acompanham a marcha. A metade da pista no sentido Feira/Salvador está sendo ocupada pelos manifestantes, o que acaba provocando congestionamentos. Mas até ontem à tarde nenhum incidente havia sido registrado. Os líderes da marcha disseram que os sem-terra vão caminhar cerca de 20 quilômetros por dia.
Em Salvador pretendem ficar quatro dias fazendo atos públicos pela punição dos culpados pelo massacre de Eldorado dos Carajás e que a reforma agrária seja acelerada. Caminhões e ônibus contratados pelo MST transportaram trabalhadores rurais de todas as regiões do Estado nos últimos dias para a concentração em Feira de Santana, de onde saiu a marcha.
Anteontem à noite dois homens dispararam tiros de revólver contra os sem-terra que estão acampados às margens da BR-101, em Messias, a 45 quilômetros de Maceió, e feriram Tassineide dos Santos Ângelo, de 11 anos. Eles estavam na caminhonete placa MUD-1863. A menina foi atingida de raspão no abdome.
De acordo com a coordenação do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, a menina foi levada ao pronto-socorro de Maceió e liberada de madrugada. Pela manhã, o ferimento no abdome voltou a sangrar e ela foi levada para o Posto de Saúde de Messias. As lideranças dos sem-terra querem deixá-la internada até que o ferimento cicatrize.
O ataque aos sem-terra será investigado pelo delegado Roberto Lisboa, da delegacia de Messias, onde foi registrada a ocorrência. O delegado vai investigar também os prejuízos causados pelos sem-terra, que queimaram um trator e um hectare de cana.
Os sem-terra reiniciaram a marcha em direção a Maceió, onde pretendem fazer no dia 17 um grande protesto pela não punição dos responsáveis pelo assassinato de 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás (PA) e também contra o decreto presidencial que proíbe a vistoria de terras em áreas ocupadas. Eles dizem que passaram um ano sem fazer ocupações e mesmo assim nenhuma área nova foi vistoriada.
As lideranças do movimento alertam que, se faltar comida durante o trajeto, haverá novos saques. Também não estão descartadas novas interdições de trechos da BR-101, que voltou a ser interditada na noite de anteontem e liberada por volta das 3 horas.

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