Sem-Terra exigem punição de pistoleiros
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segunda-feira, 30 de novembro de 1998
Marcos Zanatta 
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Querência do Norte (113 quilômetros de Paranavaí), pretende cobrar da Justiça e da polícia punição exemplar aos responsáveis pela morte do sem-terra Sétimo Garibaldi, 52 anos. O anúncio foi feito anteontem durante o velório de Garibaldi por um dos líderes do MST na região, Celso Agnhoni. Ele responsabilizou também o governo do Estado e o Incra pela situação de confronto criada na região. A Justiça, a polícia e o governo não fizeram absolutamente nada até agora para punir os responsáveis pela morte de outro companheiro nosso, o Sebastião, em Marilena. O sem-terra Sebastião Camargo Filho foi morto por pistoleiros no dia 7 de fevereiro passado, em um acampamento da fazenda Boa Sorte.
Agnhoni revelou ainda que na sexta-feira passada, depois que soube da morte de Garibaldi, o ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, ligou para ele em Querência do Norte. Ele nos garantiu que vai agilizar a desapropriação da fazenda São Francisco. A propriedade onde Garibaldi morreu tem 851 hectares e está ocupada por 56 famílias desde o dia 6 de setembro passado. O dono da fazenda, Morival Favoreto, tem a reintegração de posse. O MST alega que a área pertence ao irmão de Morival, Maurílio, que está preso por tráfico de drogas.
O Incra considerou a São Francisco de média produtividade, imprópria para desapropriação. Nós queremos a área baseados na Constituição, que garante a desapropriação de terras de traficantes de drogas para fins de reforma agrária, anuncia Agnhoni. Ele diz que na escritura e na placa que existia na entrada da fazenda, o dono indicado é Maurílio. O próprio ministro Jungmann prometeu que vem para cá assim que puder, revelou Agnhoni. Segundo o MST em Querência do Norte existem 800 famílias de sem terra à espera de uma área. Na região Noroeste são mais de 1.500 famílias. Cada famílias precisa de 25 hectares.
Os líderes do MST garantem ainda que as áreas que deveriam ser desocupadas, conforme acordo com o Incra e o governo do Estado, já foram liberadas. Agnhoni diz que apenas a fazenda Florão está com as famílias porque existe lavoura na área. Ou espera a gente colher ou indeniza, resume. Ele critica ainda a omissão da polícia em não prevenir o ataque dos pistoleiros contratados pelos donos das fazendas. Esse pessoal fica avisando até através da imprensa e ameaçando os sem-terra, e a polícia não toma nenhuma providência, reclama. O capitão Gilberto Cândido dos Santos, comandante da PM de Loanda e que chefiou o grupo de policiais que fez a segurança durante o enterro de sábado, disse que a polícia não tinha nenhuma informação sobre a ação dos fazendeiros ou grupos responsáveis pela tentativa de desocupação.
A Polícia Militar enviou 32 homens para acompanhar o velório e o enterro de Garibaldi anteontem em Querência do Norte. O corpo do sem-terra foi velado durante toda a noite no sítio de um irmão, próximo ao acampamento da fazenda São Francisco. No final da manhã o velório foi na cooperativa do MST na cidade, de onde o caixão saiu até a igreja. Cerca de 300 sem-terra de acampamentos da região acompanharam o enterro em silêncio. Foi uma forma de protestar contra a omissão das autoridades, disse Agnhoni.
No cemitério amigos de Garibaldi e coordenadores do MST discursaram defendendo a reforma agrária e em seguida foram até a praça central da cidade, onde plantaram uma árvore. Depois da cerimônia Agnhoni pediu para cada sem-terra chegar no acampamento de origem e plantar uma árvore. Um cunhado de Garibaldi, Délio Valdemar Cioata, que mora em Caxias do Sul (RS), disse que a família está inconformada com o crime. Ele nasceu e sempre trabalhou na roça e era uma pessoa de bem, não merecia isso, lamentou. Garibaldi era casado e tinha seis filhos, dois menores de idade. Ontem segundo a polícia, o clima era tranquilo na cidade e nos acampamentos da região.
Laranjal Os sem-terra assentados na parte desapropriada da fazenda Pedra Branca, em Laranjal (140 quilômetros de Guarapuava), conseguiram retirar ontem a última família que ainda permanecia na área em litígio. Na última sexta-feira o sem-terra José Rodrigues, 25 anos e o pistoleiro Nelson Pinto Guimarães, 22, morreram durante confronto na propriedade. Ontem o clima era tenso no local. Segundo moradores das proximidades os sem-terra estavam armados e percorriam toda a propriedade, para impedir a aproximação de estranhos. A polícia está na região, mas apenas acompanha a movimentação para evitar novos conflitos.
A fazenda Pedra Branca tem 688 alqueires e foi invadida por 120 famílias em julho de 1994. Mesmo com o Incra desapropriando a fazenda, o arrendatário de 120 alqueires, Antonio Martins, se recusou a deixar a área. Segundo denuncia dos sem-terra ele mantinha jagunços no local para intimidar as famílias assentadas. Os sem-terra de outros acampamentos da região decidiram então retirar o arrendatário e as famílias na área em litígio, deixando os dois mortos e dois jagunços feridos. O enterro de Rodrigues, no sábado de tarde, foi acompanhado por centenas de sem-terra, que pediram punição aos responsáveis. Guimarães também foi enterrado sábado de tarde, em Palmital, mas não houve nenhum incidente.


