Belém, 15 (AE) - A coordenação regional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) está pessimista quanto ao resultado do julgamento dos 150 policiais que participam do confronto de Eldorado do Carajás. Dependendo da sentença dada aos três primeiros réus, o MST pretende organizar uma onda de ocupações, principalmente em regiões próximas a Belém. O movimento está recrutando pessoas desempregadas na periferia da capital do Pará para reforçar suas fileiras. "Não estamos otimistas que alguém será condenado", diz o coordenador do MST no Pará, Raimundo Nonato de Souza. Segundo ele, o julgamento "pode ser uma farsa". Já o coordenador jurídico do movimento, Ney Strozake, afirma que o fato de o juiz Ronaldo Valle ter recusado a distribuir credenciais aos familiares dos 19 sem-terra mortos em Eldorado do Carajás, pode influenciar na decisão dos jurados.
"Isso foi uma manobra do juiz para diminuir a pressão sobre os jurados", diz Strozake. "A presença das viúvas, era uma forma de pressão e a possibilidade de condenação". Para tentar sensibilizar a população de Belém, até agora indiferente ao maior julgamento do País, o MST está percorrendo os bairros da periferia da cidade. "É uma forma de chamar a atenção da opinião pública", diz Nonato de Souza. Ao mesmo tempo, o movimento está cadastrando pessoas que queiram integrar o MST em futuras invasões. "Esperamos conseguir umas duas mil pessoas", afirma Nonato.
Viúvas - Apenas quatro das 15 viúvas das vítimas de Eldorado do Carajás viajaram para Belém. Todas elas sabem que não poderão assistir ao julgamento, mas irão fazer vigília na porta do auditório da Universidade da Amazônia (Unama), onde será realizado o júri.
Francinete dos Santos, viúva de Robson dos Santos, é a única delas que mantém alguma esperança de que os oficiais serão condenados. Se isso acontecer, conforme Francinete, será o presente de anivesário da filha Railene, que completa sete anos amanhã.
"A gente tem que ter esperanças, mas estou pessimista"
afirma Andrelina de Souza Araújo, viúva de João Rodrigues de Araújo. Ela dorme na mesma barraca com as outras viúvas e os filhos, todos em condições precárias, como os demais 500 sem-terra que estão acampados desde sábado na frente da Rodoviária de Belém.
Maria Alice da Silva Machado parece ser a mais triste entre as quatro viúvas. Desde a morte do marido, Joaquim Pereira Veras, se mantém isolada e não sorrí. "Não tenho motivos para isso", justifica Maria Alice. Como ela, todas mulheres carregam dramas visíveis desde o episódio de Eldorado do Carajás.
Andrelina de Araújo, por exemplo, foi ter visto a filha Aldenir, de 10 anos, se casar. Somente no mês passado, depois de completar 13 anos e já com um filho de um ano, ela justificou para a mãe o motivo de sua atitude. "A Aldenir disse que, com a morte do pai, não teria ninguém para lhe dar comida, por isso resolveu se casar com 10 anos", conta Andrelina. Quando a tristeza começa a chegar na barraca, Raimunda Conceição de Almeida, viúva de Leonardo Batista de Almeida, é a encarregada de alegrar o ambiente. E também, por ser a mais velha de todas, é a conselheira e a avó das crianças orfãs.

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