São Paulo, 07 (AE) - O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, recebeu hoje um presente inesperado: uma bandeira dos Estados Unidos. A entrega foi feita às 13h15 pelo sem-terra Ezequiel dos Santos, a quem coube pôr em prática o principal objetivo da Marcha Popular pelo Brasil: exigir o "fim da submissão" do País ao FMI. Com sandálias de borracha, nas costas uma mochila preta com marmita vazia, colher, garrafa de água e toalha, Ezequiel chegou ao 20.º andar do prédio do BC levando nas mãos uma caixa de sapatos pintada de preto. Na tampa da caixa, os dizeres: Washinton D.C. Dentro dela, a bandeira norte-americana, dobrada.
Num primeiro momento, Fraga hesitou. Ao abrir a caixa, ficou constrangido. Logo se refez. Depositou o presente sobre sua mesa e cobriu-o com outra bandeira, a do Brasil, que havia recebido antes. "Esta é a minha bandeira", disse, enfático. "Não queremos a bandeira dos Estados Unidos, queremos que o senhor a mande de volta para lá ", interrompeu Ezequiel. "Não queremos o FMI aqui ." Fraga retrucou: "O que vai prevalecer sempre são os interesses do Brasil."
A audiência incomum durou cerca de 20 minutos na sala de reuniões do gabinete do presidente. Ezequiel estava acompanhado de senadores e deputados federais, um bloco de dez parlamentares. Fraga havia agendado receber apenas os políticos. No saguão do prédio, pelo celular, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) negociou a possibilidade de o sem-terra acompanhar a comissão.
Missão - Aos 48 anos, o lavrador Ezequiel dos Santos tornou-se hoje o primeiro sem-terra a colocar os pés no gabinete do presidente do Banco Central do Brasil. Mineiro de Montes Claros, pai de três filhos (de 10, 11 e 12 anos), Ezequiel mora no Acampamento Antonio Conselheiro, um lote de 8,5 alqueires no Pontal do Paranapanema, onde estão abrigadas outras 650 famílias. Integrante da Brigada 3 da Marcha Popular pelo Brasil, Ezequiel foi o escolhido para cumprir a missão por ser o chefe da comissão de disciplina da grande caminhada.

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