O sem-terra José Marlúcio da Silva, 47 anos, foi baleado ontem durante conflito com policiais militares, quando tentava ocupar a superintendência do Banco do Brasil, no Recife. Silva acabou morrendo por volta das 19h30 devido a hemorragia. A bala transpassou o pulmão e atingiu o fígado, esfacelando-o. O trabalhador rural participava da manifestação promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) contra a política agrícola do governo.
Os sem-terra pretendiam cobrar a liberação de R$ 4,5 milhões que estavam retidos desde maio para projetos agrícolas. Cerca de oito policiais militares impediram a entrada dos manifestantes, que pela manhã haviam invadido um navio, no Porto do Recife, protestando contra a entrada de produtos transgênicos e exigindo uma política agrária que contemple o pequeno produtor.
De acordo com um dos dirigentes do MST-PE, James Vanzella, o ato era pacífico e se chegou a pedir aos policiais para falar com a direção do banco para receber uma comissão. ‘‘Ao invés disso, eles mandaram bala, nunca vi coisa igual’’, afirmou. Outros 10 manifestantes ficaram feridos.
A Polícia Militar abriu sindicância para apurar o ocorrido e a polícia civil abriu inquérito. Os sem-terra exigem a expulsão dos policiais envolvidos e querem punição pelas agressões.
No Paraná, o protesto mobilizou nove cidades: Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa, Pitanga, Francisco Beltrão, Mangueirinha, Laranjeiras do Sul e Guarapuava. Não houve registro de incidentes.
Em Cascavel, cerca de 700 manifestantes se concentraram diante da agência do Banco do Brasil, fizeram o enterro simbólico do presidente Fernando Henrique Cardoso e do Fundo Monetário Internacional, FMI e queimaram um caixão.
Um dos coordenadores estaduais do MST, Rogério Mauro, disse que a manifestação tem, entre outros objetivos, o de sensibilizar a população urbana para a desagregação da agricultura familiar, ‘‘como consequência do modelo imposto pelo FMI e aplicado pelo governo’’.
Também participaram parte das 600 famílias de agricultores que tiveram terras alagadas pelo reservatório da hidrelétrica de Salto Caxias, no Rio Iguaçu.
Em Maringá, cerca de 200 sem-terra percorreram escolas, associações de bairros e a periferia de cidades da região. Os sem-terra dizem representar os mais de 3 mil assentados e acampados na região Noroeste, e querem mostrar à comunidade a situação do pequeno produtor rural.
Os sem-terra pretendem se reunir com padres, professores, estudantes e principalmente moradores da periferia. ‘‘Queremos mostrar aos trabalhadores massacrados que nosso movimento não se resume à invasão de terras, como quer o governo’’, disse Antonio Ereci da Silva, um dos coordenadores do MST na região.
Em Laranjeiras do Sul (Centro-Oeste), 1,5 mil sem-terra e pequenos agricultores fizeram manifestação; no Sudoeste, está prevista manifestação para hoje em Quedas do Iguaçu, onde está o maior acampamento de sem-terra do Paraná, com mais de 1,3 mil famílias.
Em Mangueirinha, cerca de 800 membros do MST acamparam em frente ao Banco do Brasil e entregaram uma pauta de reivindicações ao gerente da agência, pedindo urgência na liberação do crédito de custeio da safra e liberação de recursos para a compra de áreas para assentar 550 famílias acampadas nos acampamentos Antônio Tavares Pereira, Santo Antônio e Mangueirinha. (Colaboraram Paulo Pegoraro, de Cascavel, Marcos Zanatta, de Maringá, e Heloísa Inocêncio, De Pato Branco, Especial para a Folha)

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