Curitiba - O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) havia garantido que as cerca de 1,5 mil famílias que ocuparam o Núcleo Agrícola da Fazenda Araupel, em Quedas do Iguaçu (165 quilômetros a leste de Cascavel), não portavam armas, apenas ferramentas de trabalho. No entanto, na noite de terça-feira, um sem-terra foi morto com um tiro de revólver, calibre 38, dentro do acampamento. Além do ferimento à bala no pescoço, Joel de Lima Vaz, 39 anos, foi atingido por um golpe de facão na cabeça.
O secretário de Estado da Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, determinou, há cerca de 10 dias, operações de desarmamento em acampamentos de sem-terra em todo o Estado. Mas no caso da Araupel, segundo a assessoria de imprensa, a situação ainda é delicada e, por essa razão, os policiais militares foram orientados a não entrar no acampamento. Apenas as pessoas que chegam ou saem da fazenda estão sendo revistadas.
Os autores do assassinato Antônio de Almeida e João Maria Antunes de Almeida foram presos e conduzidos à delegacia de Quedas do Iguaçu. Outras quatro pessoas foram presas na última segunda-feira no acampamento dos sem-terra na Araupel por porte ilegal de armas.
Antônio e João Maria foram indiciados por homicídio doloso. João Maria responderá, ainda, por porte ilegal de arma. O revólver, calibre 38, que usou para matar Joel Vaz, não estava com a numeração raspada, como outras armas apreendidas entre os sem-terra, no início da semana, mas João não tinha porte legalizado.
De acordo com o delegado de Quedas do Iguaçu, Douglas Possebon Freitas, vítima e autores já tinham histórico de desentendimentos anteriores, quando estavam em outro acampamento entre Rio Bonito do Iguaçu (125 km a oeste de Guarapuava) e Laranjeiras do Sul.
Freitas disse que os autores relataram que Vaz teria ido até o ''barraco'' de João e começado a ofendê-lo e ameaçá-lo. A vítima teria primeiro desferido um golpe de facão, ferindo o lado esquerdo do rosto de João Maria. Ele reagiu à agressão, atirando em Vaz. Antônio, em defesa do irmão, atingiu Vaz com um golpe de facão na cabeça. Outro irmão dos acusados também foi detido, mas segundo o delegado, não foi apurada sua participação no crime.
Representantes do governo do Estado iriam de helicóptero, ontem, para Quedas do Iguaçu, fazer um levantamento da situação e tentar negociar a relocação das famílias para uma outra área da fazenda. Por causa do mau tempo, apenas a ouvidora agrária nacional adjunta, Maria de Oliveira, seguiu de carro para a região. Um representante do Incra, em Cascavel, Nilton Bezerra, também foi para a Quedas do Iguaçu, mas somente hoje eles devem ir até a área ocupada pelos sem-terra.
O advogado da Araupel, Paulo Macarini, disse que os principais acionistas da empresa se reúnem amanhã, em Porto Alegre (RS), para discutir a situação da fazenda e, inclusive, se aceitam o deslocamento dos sem-terra para o acampamento da Bacia. Ele voltou a afirmar que não existe interesse por parte da direção da Araupel em vender uma área da fazenda para assentamento. Cerca de 26 mil hectares da propriedade já foram desapropriados para esse fim.
A Folha não conseguiu contato com a coordenação do MST que está acompanhando a ocupação da Fazenda Araupel.

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