Sem-terra é morto em acampamento em AL e MST acusa fazendeiro de ser o mandante do crime
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quarta-feira, 02 de fevereiro de 2000
Por Ricardo Rodrigues 
Maceió, 02 (AE) - O sem-terra José Lenilson dos Santos, de 28 anos, foi assassinado, hoje pela manhã, em um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), na Fazenda São Pedro, em Atalaia, a 96 quilômetros de Maceió, supostamente a mando de um fazendeiro. Além de Santos, morto com um tiro na cabeça, dois outros sem-terra foram feridos. Integrantes do MST de Alagoas acusam pistoleiros pelo crime; o mandante seria o fazendeiro Pedro Duarte, conhecido como "Pedro do Charque". A reportagem tentou ouvir, por telefone, o fazendeiro mas ele não foi localizado. Seus parentes disseram que o ruralista estava viajando e só se manifestaria após retornar.
A morte do sem-terra provocou uma reunião extraordinária entre o secretário de Segurança, Edmilson Miranda; o comandante da Polícia Militar, coronel Ronaldo Santos; comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Antônio Campos de Almeida; o secretário da Agricultura, Petrúcio Bandeira; o chefe da Procuradoria Geral de Justiça, Lean Araújo; e o superintendente estadual do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Ricardo Vitório. Após a reunião, realizada na Secretaria Estadual de Agricultura, eles decidiram ir até o local do conflito para verificar o que realmente aconteceu. Segundo o secretário Edmilson Miranda, a prioridade é prender o assassino do sem-terra e apaziguar os ânimos dos acampados.
Pistoleiros - Segundo os sem-terra, o acampamento foi invadido hoje pela manhã por 18 pistoleiros armados que tentaram expulsar as 225 famílias que há um ano ocupam a área de 2,4 mil hectares. Houve resistência. No confronto, Santos levou um tiro na cabeça e outros dois sem-terra foram feridos. De acordo com Daniel Correia, da coordenação do MST-AL, os pistoleiros foram contratados por Pedro Duarte. "Essa não foi a primeira vez que ele mandou seus capangas para expulsar nossos companheiros", disse. O líder sem-terra firmou que o governo do Estado e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) já haviam sido avisados da possibilidade de confronto, porém, não tomaram providências. O clima na área continua tenso.
O delegado de Atalaia, Dalmo Lima Lopes, esteve na fazenda com policiais civis e militares, em duas viaturas, mas disse que seu trabalho foi dificultado por causa da revolta dos sem-terra. "Eles queimaram a casa grande da fazenda, atearam fogo na plantação de cana, destruíram um caminhão e um trator", disse o delegado. Ele disse que conseguiu apenas arrolar testemunhas e conduzir o morto até o Instituto Médico Legal de Maceió. Segundo o chefe de serviço da delegacia de Atalaia, Valdomiro Marques da Silva, o MST acusa o administrador da Fazenda São Pedro, José Luciano, de ter sido o autor do disparo que matou Santos. Invasões - Em apenas um ano, a Fazenda São Pedro foi ocupada dez vezes pelos sem-terra. A última invasão aconteceu no início do ano. A superintendência do Incra em Alagoas considera a área produtiva, mas o MST-AL diz que a "vistoria foi manipulada para beneficiar o proprietário". "Os técnicos do Incra fazem vistorias dependendo dos interesses dos fazendeiros, como foi denunciado na Bahia", provoca Duarte. A reportagem não conseguiu contato com a superintendência local do Incra.
Segundo Reginaldo Pacheco, da coordenação do movimento, a revolta entre os sem-terra é grande. A PM e a Polícia Civil estiveram na área para fazer o levantamento do conflito, mas foram expulsas pelos sem-terra. "Os policiais deveriam ter ido atrás dos pistoleiros e não ao acampamento depois do sangue derramado", desbafou Pacheco.


