Sem-terra e índios programam protestos para sábado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de abril de 2000
Por Roldão Arruda Enviado Especial 
Porto Seguro, BA, 20 (AE) - O Movimento dos Sem-Terra e os representantes indígenas programaram para sábado dois atos de protesto. O primeiro deles será realizado pelos índios, na parte da manhã, em Coroa Vermelha, a praia na qual o frade franciscano Henrique de Coimbra celebrou a primeira missa em solo brasileiro
há 500 anos. Os índios, que afirmam não ter nada para comemorar no dia do descobrimento, irão protestar contra a falta de atenção do governo para seus problemas, especialmente o atraso na demarcação de áreas indígenas.
No início da tarde eles se juntarão no mesmo local aos sem-terra e rumarão em direção a Porto Seguro, o local das comemorações oficiais, localizado a 22 quilômetros de Coroa Vermelha. Estima-se que no total serão cinco mil pessoas - três mil sem-terra, que estão acampados a 56 quilômetros de Porto Seguro, e dois mil índios, que vieram a Coroa Vermelha participar da Conferência Indígena.
Embora esteja sendo anunciada a presença de grupos representantes do movimento negro, de sindicatos e de organizações populares, até hoje os organizadores do protesto não sabiam dizer ao certo quais entidades participariam.
Ainda no dia 22, um grupo de 20 representantes indígenas irá manter um encontro oficial com o presidente, de acordo com informações divulgadas hoje durante a conferência. O convite partiu da presidência e, embora alguns grupos presentes na conferência tenham defendido a idéia de rechaçá-lo, a maioria decidiu aceitar. "Vamos entregar a ele o documento final desta conferência, no qual falaremos sobre a situação do índio e manifestaremos nossas principais reivindicações", disse hoje um dos principais líderes do encontro, o macuxi José Adalberto, de Rondônia.
Na discussão prévia realizada hoje sobre as reivindicações que irão constar do documento, a que mais se destacou é a urgente demarcação das terras indígenas. Durante os debates, o nome do presidente Fernando Henrique foi vaiado diversas vezes pelos índios. O Congresso Nacional também foi criticado com aspereza. O índio Agamenon, do grupo geripankó, de Alagoas, disse que os deputados e senadores são manipulados por lobbies formados por proprietários rurais, empresários da área de mineração e do setor madeireiro, que não desejam a demarcação das terras que pertencem aos índios. "O Congresso está podre", disse Agamenon, sendo aplaudido pela assembléia.
A segunda principal reivindicação a ser apresentada ao presidente deverá ser a vigilância sobre as terras já demarcadas. Durante toda a conferência foram apresentadas queixas de terras indígenas invadidas impunemente por fazendeiros, garimpeiros, grileiros, em diversas partes do País.
Os índios também irão reivindicar a implantação de métodos diferenciados de ensino em suas aldeias. Querem ter mais professores índios e que seja ensinado nas escolas a língua indígena. IBEP INSTITUTO BRASILEIRO DE ESTUDOS POLíTICOS 1


