Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
DesconfortoFaltaram cadeiras na reunião entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e lideranças do movimento sem-terra O presidente Fernando Henrique Cardoso e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) não chegaram a um acordo ontem. Depois de uma reunião que durou uma hora e 15 minutos, os sem-terra continuaram criticando o governo, prometeram manter as invasões e dobrar o número de acampamentos.
Ao final do encontro, o próprio presidente falou à imprensa. FHC disse que não podia imaginar que não ‘‘haja vontade de cooperar’’. Atacou também a ‘‘atitude negativista’’ em relação à reforma agrária. Segundo o porta-voz Sergio Amaral, o presidente tratou de rebater, um por um, os itens reivindicados pelo MST contidos em documento entregue na reunião.
O presidente sugeriu a criação de uma comissão para discutir as reivindicações dos sem-terra. Os líderes do MST não deram resposta. Disseram que vão submeter a proposta aos integrantes do movimento. Os sem-terra saíram do encontro prometendo repetir, no Dia do Trabalho (1º de maio) e no dia 25 de julho (considerado Dia do Trabalhador Rural), a mobilização que aconteceu ontem em Brasília.
‘‘Vamos fazer da reforma agrária a mesma bandeira das diretas já e do ‘‘fora Collor’’, afirmou José Rainha Jr., um dos líderes dos sem-terra. Ele disse que a idéia é repetir nas capitais dos Estados grandes manifestações de trabalhadores rurais e urbanos pela reforma agrária. ‘‘Não adianta lavar porco com xampu. O presidente está mal informado sobre a realidade e não quer admitir os problemas’’, disse Enio Bonemberger, da direção nacional do MST.
FHC disse que o governo está disposto a baixar uma MP (medida provisória) para atender à maior parte dos pedidos do MST, uma vez que ele próprio concorda com a maioria deles.
Essa MP já está preparada e altera a lei 8.629/93, que trata da reforma agrária. A proposta do governo já atendia previamente os pedidos do MST. Rainha afirmou que as manifestações contarão com o apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e movimentos populares.
Os sem-terra entregaram ao presidente duas cartas. Uma era assinada pela direção da marcha pela reforma agrária e outra pela direção do MST. Eles reivindicaram o assentamento de 500 mil famílias até o final de 98 e mais recursos para a reforma agrária e assentamentos. João Pedro Stédile, também da direção do MST, disse que não houve respostas concretas do presidente durante o encontro. Segundo ele, a intenção foi levar ao presidente as críticas da sociedade ao seu governo. ‘‘Não saímos nem satisfeitos nem insatisfeitos.’’
No documento, os sem-terra afirmam a FHC para não se iludir com as pesquisas de popularidade. ‘‘Isso é igual campanha de sabão em pó. As dificuldades que o povo está sofrendo são muito grandes.’’ Stédile disse também que os rurais não aceitam o ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) como interlocutor do governo, porque ele está desqualificado para o cargo. O ministro esteve presente na reunião e só se manifestou para corrigir um dado a respeito de um programa do governo.
Sem cadeira - O presidente Fernando Henrique Cardoso não cumprimentou o líder sem terra José Rainha Júnior na reunião com lideranças do MST. Quando entrou na sala, FHC encontrou todos os líderes do MST em pé, em volta da mesa. O presidente só cumprimentou os dois integrantes do movimento que ocupariam as cadeiras a seu lado, João Pedro Stédile e Gilmar Mauro.
Se fosse apertar a mão de todos os presentes, Rainha seria o quarto a ser cumprimentado por FHC.
Rainha não sentou à mesa com FHC, mas num canto do gabinete. Faltaram cadeiras na reunião, e Rainha cedeu seu lugar a um representante estadual. Segundo os líderes do MST, o presidente passou o encontro tentando fazer brincadeiras para descontrair o ambiente.
Enio Bonemberger, da direção nacional do MST, classificou de ‘‘ridícula’’ uma proposta feita por FHC. O presidente queria formar um fórum com o movimento para tentar reduzir as tarifas internacionais impostas aos produtos agrícolas brasileiros.

mockup