Um trabalhador rural sem terra foi ferido ontem com dois tiros durante um conflito envolvendo policiais militares e lavradores ligados ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) acampados em Passira, agreste de Pernambuco. A vítima, José Alexandre da Silva, 22, foi baleado no abdômem e na coxa direita quando a PM tentava recuperar a carga de um caminhão saqueado às 5 horas na rodovia PE-95. Seu estado de saúde era considerado regular até o início da noite de ontem.
O veículo, que transportava bolachas e macarrão, havia sido desviado com outras duas carretas carregadas com bebidas e farelo de ração para um acampamento montado na fazenda Condic, invadida em março e onde moram 450 famílias. No local, os sem-terra descarregaram a bolacha e o macarrão e liberaram os caminhões com as bebidas e o farelo. O incidente ocorreu no momento em que os alimentos estavam sendo distribuídos aos acampados. Alertada sobre o saque, a PM enviou ao local 20 homens de Passira, Limoeiro e Nazaré da Mata.
‘‘Eles chegaram, derrubaram a porteira e entraram atirando’’, afirmou o coordenador do acampamento, Ariosvaldo Oliveira. Segundo ele, depois de acertar o rapaz, os policiais ainda ameaçaram o pessoal dizendo que voltariam outro dia porque ‘‘a política agora era outra e que o pau iria comer’’. O governador Miguel Arraes (PSB) perdeu a eleição para Jarbas Vasconcelos (PMDB).
A mulher do agricultor ferido, Maria da Conceição Martins Barbosa, 20 anos, grávida de nove meses, afirmou que seu marido não reagiu. ‘‘Ele estava na porteira e foi atingido quando voltava para o acampamento.’’
A PM apresentou outra versão para o caso. Segundo o major Alberis Tadeu Araújo Silva, comandante do batalhão da corporação na região, os agricultores reagiram a tiros e os policiais foram obrigados a responder. Como ‘‘prova’’, o major entregou à Polícia Civil um revólver calibre 32 com duas cápsulas deflagradas e uma garrucha artesanal supostamente apreendidos com os sem-terra.
O comandante disse ainda que foram os próprios policiais quem socorreram o ferido e que a corporação foi orientada pelo governo do Estado a evitar confrontos com os agricultores acampados.
O coordenador do acampamento negou que os sem-terra estivessem armados. Disse que suas armas ‘‘são os instrumentos de trabalho: a foice, o facão e a enxada’’. O lavrador baleado foi levado para o hospital de Limoeiro, onde recebeu atendimento de emergência. Uma hora depois, ele foi transferido para o hospital Getúlio Vargas, em Recife, onde foi operado.
Os sem-terra do acampamento onde ocorreu o conflito afirmaram que o incidente não vai alterar a disposição do grupo de saquear alimentos ‘‘enquanto o governo não oferecer alternativa’’.
‘‘Ninguém vai desistir agora por causa disso’’, afirmou a mulher da vítima. ‘‘Se precisar saquear de novo, todo mundo aqui vai participar’’, disse. A fazenda Condic já foi vistoriada pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e considerada improdutiva. A área está sob processo de desapropriação.

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