Marcos NegriniMais uma vítimaO auxiliar de legista Jessé Valim com o corpo de no IML de Paranavaí: tiro a um palmo de distânciaO trabalhador sem-terra Sebastião Camargo Filho, 65 anos, foi assassinado na manhã de ontem por pistoleiros durante desocupação da Fazenda Boa Sorte, no município de Marilena, a 76 km de Paranavaí (Noroeste do Estado). Outro sem-terra, Dirceu Cordeiro de Oliveira, 24 anos, levou dois tiros de calibre 12 nas nádegas e foi operado na Santa Casa de Paranavaí. O agricultor Pedro Inglês teve uma costela quebrada e foi atendido no Hospital de Querência do Norte.
A desocupação das duas fazendas foi feita por cerca de 50 pistoleiros armados de espingardas, revólveres e metralhadoras, todos encapuzados e vestidos com roupas da mesma cor: marrom escuro. Às 4 horas, eles desocuparam a Fazenda Santo Ângelo, de 839 hectares, onde havia 40 famílias acampadas. Não houve tiroteio e os sem-terra foram levados até Querência em caminhões fretados pelos proprietários das fazendas.
As fazendas Santo Ângelo e Boa Sorte foram declaradas de interesse social (improdutivas) pelo Incra no ano passado e estavam em processo de desapropriação. Em dezembro, a juíza Rosicler Maria Miguel, de Querência do Norte, acatou pedido de liminar de reintegração de posse da Boa Sorte, de propriedade de Jorge Tina.
A Fazenda Boa Sorte tem 937 hectares e foi invadida às 7h20 de ontem. Lá estavam acampadas 70 famílias. O ataque ocorreu quando muitos ainda estavam acordando. Segundo Edson Zanini, do MST, que estava acampado e foi deixado em Querência do Norte, os pistoleiros já chegaram gritando e atirando. Sebastião Camargo Filho, ainda sonolento, levou um tiro à queima-roupa na cabeça. ‘‘Ele morreu de graça. Encostaram a arma na cabeça dele. Covardia’’, diz Zanini.
Segundo a coordenação do MST em Querência do Norte, muitas das famílias foram obrigadas a entrar nos caminhões, sem roupas e documentos. Zanini conta que muitas mães ficaram separadas das crianças, que se perderam na fazenda. ‘‘Eles obrigaram a gente a entrar no caminhão feito gado e foram largando gente pela estrada, muitos em Monte Castelo, outros em Loanda e agora ninguém mais sabe onde está a família. Nós não sabemos se morreu mais gente. Quando estávamos no caminhão ainda ouvimos muitos tiros.’’
Um grupo de sem-terra que estava em um dos caminhões obrigou o motorista a deixá-los em Querência. O motorista Devanir Aparecido Santi apresentou à coordenação do MST os documentos do caminhão Mercedes Benz placas ADQ 2745 de Nova Londrina, de propriedade de Napoleão Augusto Chiamulera. A militante do MST Marli Brambila disse que levou o motorista por volta das 12 horas para depor na delegacia, ‘‘mas o delegado não estava lᒒ.
Segundo o repórter Ferreira Júnior, da Rádio Pontal, de Nova Londrina, que esteve no local, já por volta do meio-dia não havia mais ninguém na fazenda - somente alguns sem-terra caminhando pelas estradas da região. O fazendeiro Jorge Tina não foi encontrado. Seus filhos disseram que ele não estava em casa.
A guarnição da Polícia Militar de Loanda foi deslocada até a fazenda para procurar os pistoleiros. Segundo o delegado Eduardo Mady Barbosa, de Nova Londrina, onde será aberto inquérito, até as 12 horas de ontem ninguém havia sido preso.
Na Faculdade de Ciências e Letras de Paranavaí, que empresta uma sala de anatomia para o Instituto Médico Legal fazer necrópsias, o auxiliar de legista Jessé Valim mostrou o corpo de Sebastião Camargo Filho, o sem-terra morto na Fazenda Boa Sorte. Segundo Valim, ele levou um tiro de calibre 12 na cabeça a um palmo de distância. Sua mão esquerda também foi atingida pelas balas. ‘‘Ele deve ter levado a mão à cabeça para se proteger’’, afirmou Valim. A necrópsia de Camargo teve início às 14 horas de ontem.
Omissão‘‘Houve omissão e conivência das forças policiais no ataque aos sem-terra em Marilena’’. A acusação é do coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Darci Frigo. Segundo ele, os sem-terra sabiam que poderiam ser alvo de uma investida da UDR. Frigo afirmou que, na sexta-feira, havia conversado com a assessora especial do Incra, Maria de Oliveira, alertando que os trabalhadores da região estavam receosos da violência dos fazendeiros depois dos episódios envolvendo pistoleiros no dia anterior, na Fazenda Ouro Verde.
Segundo Frigo, Maria de Oliveira teria falado em seguida com o comando do policiamento de Paranavaí e pedido reforços policiais na região, mas não houve providências. ‘‘Mesmo com as denúncias da ação dessas milícias paramilitares, a Secretaria de Segurança Pública não fez nada.’’

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